A espinhosa missão de Supeia

A espinhosa missão de António Supeia (o primeiro da direita para esquerda, nesta foto) em Cabo Delgado, como Secretário de Estado, hoje empossado pelo Presidente da República de Moçambique, Filipe Jacinto Nyusi

Quase dois meses volvidos, recaiu sobre António Njanje Taimo Supeia a opção de Filipe Jacinto Nyusi, Presidente da República de Moçambique, para preencher a vacatura há muito aberta com a saída de Armindo Saúl Atelela Ngunga do poderoso cargo de Secretário de Estado da rica, mas martirizada província nortenha de Cabo Delgado.

Como se sabe, Armindo Ngunga, um discreto académico, mas por vezes polémico, foi destacado para dirigir a sensível Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN), que durante muito tempo esteve meio apagada quando tinha como timoneiro o idoso general Armando Panguene.

António Njanje Taimo Supeia tem pelas costas uma província com largas regiões afectadas pela actividade armada de bandos terroristas desde meados de 2017, situação que já gerou perto de um milhão de deslocados e um número que jamais será conhecido de mortos e feridos, para além de danos materiais igualmente incalculáveis.

Por conta da actividade banditesca, em Cabo Delgado se assiste a fenómenos simplesmente desconfortáveis para um Estado digno desse nome, designadamente a fuga de funcionários públicos e a falta de abastecimento em sectores como a saúde (medicamentos) e educação, o que já levou ao encerramento de postos médicos, escolas e serviços administrativos.

O Estado tem revelado incapacidade em gerir o número exponencial de deslocados e refugiados (mais de 3.800 repatriados coerciva e desumanamente da vizinha Tanzânia), muitos dos quais optam por buscar refúgio na capital provincial, Pemba.

Outros de grupos de deslocados procuram abrigo seguro noutros distritos de Cabo Delgado, com principal enfoque para Metuge e Mueda (terra natal de Nyusi), mas outros rumam para outras províncias, incluindo as do Sul de Moçambique, capital, Maputo, inclusive.

Fontes habilitadas referem que a situação em Cabo Delgado tende a agravar-se não só devido à incapacidade do Estado em derrotar os bandidos armados, quadro evidenciado com a tomada e permanência dos turras em Mocímbia da Praia, já lá vai um ano, mas igualmente porque o conflito prossegue em direcção às regiões-refúgio, criando-se um cenário onde os refugiados poderão deixar de ter alternativas seguras.

O espectacular e altamente mediático ataque a Palma no dia 24 de Março deste ano levou à fuga de cerca de metade dos habitantes para a nova vila do “reassentamento” de Quitunda, na baía do Afungi, construída para albergar os deslocados resultados desta investida.

Consta ainda que algumas regiões afectadas pelos confrontos em Cabo Delgado têm trocado constantemente de mãos (ora em poder das Forças de Defesa e Segurança – FDS – de Moçambique, ora dos chamados “insurgentes”), tornando estas regiões simplesmente inseguras tanto para os combatentes como para os não combatentes.

Muidumbe (a aproximadamente 130 quilómetros de Pemba) é apontado como o exemplo mais flagrante desse quadro.
Embora a Igreja Católica, ONG’s como os Médicos Sem Fronteiras e diversas agências das Nações Unidas estejam a compensar parcialmente a ausência do Estado no abastecimento das populações deslocadas, são identificadas dificuldades burocráticas acrescidas na deslocação de voluntários no apoio aos refugiados e na importação de bens de primeira necessidade, incluindo medicamentos.

É mais ou menos este Cabo Delgado que António Njanje Taimo Supeia tem pelas mãos. (A espinhosa missão)

Redactor

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