Carta aberta para a ministra

Carta aberta para  – Assumo que a ministra Carmelita Namashulua me conhece.

Estivemos juntos em alguns eventos públicos dentro e fora de Moçambique. Era Ministra de outro pelouro também importante.

Mas não é por isso que lhe escrevo esta carta.

Estou a chorar sem lágrimas no rosto e a sangrar sem gotas de sangue. Tudo acontece em forma de hemorragia interna grave provocada por crimes praticados por alguns professores em todo o país perante cumplicidade do governo que faz vista grossa.

Esta semana estava na cidade das acácias a caminhar pela Rua de Xilembene, nome da terra natal de Samora Machel, verdadeiro líder visionário de Moçambique independente. Parei para comprar fruta que estava à venda no quintal de uma residência.

Chegou uma aluna rigorosamente vestida de uniforme escolar.

Com semblante muito feliz, a aluna não conseguia assegurar-se para a sua amiga ou irmã terminar a interacção comigo.

A jovem disse que já tinha feito o teste. Insistiu pelo menos duas vezes à espera de alguma palavra da sua amiga ou irmã que estava atrapalhada em resolver o assunto de trocos para mim.

Então, perguntei à aluna como tinha corrido o teste. Sem qualquer hesitação de falar com alguém estranho respondeu que o teste fora todo resolvido em casa, pelo que na escola fora simulação.

Fiquei sem jeito. A hemorragia interna agravou-se, porque há um mês recebera dois vídeos no meu telemóvel. Um mostrava sala de aula com alunos e no fundo ouvia-se voz de alguém, por sinal professor, a dizer que os seus alunos não deviam ter vergonha de levar pauzinhos para contar, porque mesmo estando na décima primeira classe tinham problemas básicos de aritmética da primeira, segunda e terceira classes. Disse que os alunos não conseguiam fazer a adição de números naturais ou subtração de números inteiros ou então multiplicar.

O professor desgastado afirmou que se sentira obrigado a parar com o programa normal para tentar corrigir os defeitos os alunos traziam das classes anteriores.

Disse que um dos alunos da turma não sabia dizer quanto era três vezes seis e por isso mandou-lhe trazer pauzinhos.  

Outro vídeo mostra uma aluna uniformizada da décima primeira classe que não conseguia dizer quanto era três vezes quatro.

Senhora Ministra, pense como se esses alunos fossem seu filho ou filha biológicos na décima primeira classe sem saber o resultado de três vezes quatro ou três vezes seis.

Na semana passada encontrei-me com três crianças que vinham de escola. Todas estão na quarta classe. Em jeito de brincadeira, perguntei-lhes o que tinham aprendido na escola. Uma respondeu que tinham aprendido ler. Pedi à criança para ler o que estava escrito na minha camiseta. Ela e as outras duas não conseguiram ler. Fiquei muito desapontado com a qualidade do ensino das flores que nunca murcham. A pandemia de COVID-19 agravou a situação já péssima da qualidade do ensino em Moçambique.

Senhora Ministra, estou a chorar sem lágrimas no rosto e a sangrar sem gotas de sangue. Tudo acontece em forma de hemorragia interna. Fiz quarta classe em 1979 numa aldeia muito pobre onde nasci que até hoje a escola não tem carteiras, electricidade e água canalizada.

No entanto, sabia ler e escrever perfeitamente.

Sabia dizer que três vezes quatro são 12 e que três vezes seis são 18, sem problema porque aprendera tabuada.

Todos os testes eram feitos na escola e ano em casa.

Salve a educação, salve-me, senhora Ministra! (Carta aberta)

THANGANI WA TIYANI

Este artigo foi intitulado “Carta aberta para a ministra da Educação de Moçambique”, foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 11 de Novembro de 2021, na rubrica de opinião denominado O RANCOR DO POBRE

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