Até quando a vontade política continuará a custar vidas? — JÚLIO CUMBE
Na governação, é imprescindível que exista vontade política dos que governam para que o país se desenvolva e, consequentemente, que os governados vivam com dignidade, melhorem as suas condições de vida.
Não se muda de marinheiro enquanto se atravessa o mar. Esta máxima significa que não é aceitável, hoje, justificar falhas estruturais com a alegada falta de meios — como se vê nos discursos do Instituto Nacional de Meteorologia (INAM). Quando as cheias não são um fenómeno novo. Pelo contrário, o país tem histórico recorrente de desastres naturais e é, infelizmente, campeão em recessões provocadas por intempéries de diversas magnitudes. Por outro lado, de forma questionável tem um concidadão “campeão em desastres naturais”.
Ano após ano, repete-se o mesmo padrão: discursos que fogem à resposta do problema e preferem apontar culpados externos. A pergunta impõe-se: o que se espera que aconteça para que a vontade política, finalmente, se manifeste?
Até porque nem a elite que carrega essa vontade ficou imune às cheias.
A vontade política permanece quieta, enquanto o oportunismo político dança sobre o choro das vítimas da catástrofe. É um espetáculo triste, que expõe a insensibilidade e a distância entre o discurso oficial e a realidade vivida pelo cidadão comum.
É tempo de alterar a estratégia de comunicação e, sobretudo, de acção, se investir seriamente nas instituições. Equipando-as de meios e recursos humanos. O que reflectirá em menos desculpas e mais trabalho e, consequentemente, menos destruição e perdas de vidas humanas.
De que nos vale possuir muitas estradas se são de fraca qualidade?
A lucidez impõe outra lógica: mais vale uma estrada cara, bem construída e capaz de resistir às intempéries, do que quilómetros de vias baratas que precisam de reabilitação periódica. No fim, o barato sai caro. Uma obra demorada, mas sólida, vale mais do que uma rápida e frágil.
Enquanto persistir a oposição entre o discurso vazio e a verdadeira vontade política, o pacato cidadão continuará a sofrer o drama da insensibilidade de quem governa.
Não nos eximimos da crítica. Se esta for considerada diabólica, mais diabólica ainda é a reacção de quem se recusa a ser criticado.
Este artigo foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 26 de Janeiro de 2026.
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