O nosso maior valor são os órgãos sexuais! — JÚLIO S. CUMBE

Não é novidade, para letrados e iletrados, que o nosso país é multicultural e multilinguístico. Diante dessa riqueza que também pode tornar-se uma espécie de “bomba-relógio”, levanta-se uma questão inquietante: será que o Estado consegue criminalizar a superstição?

Antes de tudo, é preciso reconhecer: todos os povos são, em alguma medida, supersticiosos. Isso, de certo modo, faz parte do equilíbrio social. Sempre se soube que este ou aquele indivíduo é tido como feiticeiro. Muitos ignoram, dizendo tratar-se de “coisas do campo”. Ainda assim, ouvimos relatos sobre práticas como o Ku kendla e até aplaudimos, por vezes, orientações de pessoas que alegadamente têm o “prazo de vida” de outros decretado. Diante disso, a pergunta impõe-se: a quem responsabilizar?

Por um lado, o Ministério da Saúde sustenta o lema “o nosso maior valor é a vida”. Por outro, a tradição africana defende que, “o maior valor é proteger espiritualmente a vida”. Nesse cruzamento de visões, surgem fenómenos curiosos e preocupantes.

Nos últimos dias, temos sido bombardeados nas redes sociais e fora delas, por relatos de desaparecimento de órgãos sexuais masculinos, supostamente provocados por um simples toque de um indivíduo tido como supersticioso. Esse fenómeno parece desafiar directamente aquilo que, ironicamente, muitos começam a considerar como o “nosso maior valor”: os órgãos sexuais, símbolo de masculinidade.

Em algumas regiões do país, onde a superstição ainda é profundamente enraizada como forma de resolver problemas humanos, surgem respostas igualmente simbólicas. Diz-se ter sido “revelado espiritualmente” um amuleto protetor contra o desaparecimento do “homem”: um simples alfinete e um elástico. E, surpreendentemente, muitos afirmam que “resulta”. Daí a compra frenética do amuleto.

Afinal, tanto a crença ocidental como a oriental sustentam que fé é acreditar naquilo que não se vê, mas se espera que aconteça. Inspirados nisso ou não, muitos passam a acreditar que o alfinete e o elástico são capazes de impedir o desaparecimento dos órgãos sexuais.

Enquanto isso, o detentor do lema “o nosso maior valor é a vida” observa, talvez à espera de atender casos e afirmar que são raros, mas possíveis. Ainda assim, dificilmente será ovacionado, pois, no fundo, “todos acabamos, de forma forçada ou não, por ceder à superstição”.

Este caso ainda suscitará debates, com especialistas de diversas áreas do saber, dos quais se espera mais esclarecimento do que confusão.

A situação reabre, assim, a discussão sobre a articulação entre a medicina moderna e a tradicional, bem como sobre a valorização da cultura africana sem, contudo, cair na sua negligência ou romantização acrítica.

Afinal, não somos apenas “grandes produtores de gás”; somos também ricos em diversidade cultural.

Será que o nosso maior valor é, de facto, a vida… ou os órgãos sexuais?

©JÚLIO S. CUMBE

Este artigo foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 28 de Abril de 2026.

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