O Báculo Transfigurado — Padre JOÃO RIBEIRO

O báculo, que por séculos carregou a promessa do Bom Pastor, foi desfigurado. O cajado esculpido para resgatar as ovelhas perdidas e guiar os passos dos crentes tornou-se o cetro de um poder absoluto, um instrumento de carnificina espiritual empunhado contra aqueles que deveriam encontrar no seu Bispo um porto seguro.

​A haste que outrora significava sustento e apoio na caminhada converteu-se em chicote. Já não servia para amparar, mas para açoitar sem piedade qualquer um que ousasse pensar de forma diferente daquele que, supostamente em nome de Deus, ali fora colocado para liderar.

​O báculo, que finalmente está prestes a ser depositado, renunciou à sua missão original. Não estimulou as ovelhas cansadas, nem afastou os lobos que ameaçavam o rebanho. Em vez disso, agiu para desencorajar os crentes mais valentes, erguendo muralhas onde deveriam existir pontes, sufocando o próprio crescimento da Igreja que jurara proteger.

​Agora, o tempo esgota-se. O povo, que em circunstâncias justas choraria a partida do seu guia espiritual, hoje respira num alívio profundo e silencioso. O rebanho liberta-se, enfim, de uma liderança paradoxal que professava a palavra divina com os lábios enquanto a negava com as próprias atitudes.

​Os dias finais de um líder, que por direito deveriam ser cobertos pelo manto do pesar e da reverência, transformaram-se no advento de uma comemoração. A despedida não deixa saudades; deixa espaço para a esperança.

​Oh, o báculo transformado… O pastor que se fez lobo do seu próprio rebanho.

JOÃO RIBEIRO (Padre)

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