A juventude não é o futuro. É o presente — RAFAEL NAMBALE
O país não pode continuar a pedir paciência à geração que já esperou demasiado
Há uma cena que se repete todos os dias em Moçambique.
Acontece em Maputo, Beira, Nampula, Pemba, Lichinga, Quelimane, Xai-Xai, Chimoio e em tantos outros pontos do país.
Um jovem acorda cedo.
Sai de casa com um currículo na pasta, um certificado na mochila ou uma ideia de negócio na cabeça.
Sai com esperança.
Mas regressa ao final do dia com a mesma pergunta que o acompanha há meses ou até há anos:
“Quando chegará a minha vez?”
É a pergunta do recém-licenciado que continua sem emprego.
É a pergunta do jovem agricultor que trabalha a terra e não encontra mercado para os seus produtos.
É a pergunta do empreendedor que tem uma ideia, mas não encontra apoio.
É a pergunta do jovem que sonha construir uma vida digna através do seu esforço, mas que sente as portas constantemente fechadas.
E talvez nenhuma pergunta seja mais reveladora do estado de espírito de uma geração.
Porque existe algo que raramente aparece nas estatísticas económicas ou nos relatórios oficiais.
O cansaço psicológico. O desgaste emocional.
A frustração silenciosa de quem continua a acreditar, mesmo quando a realidade parece insistir em desmentir os seus sonhos.
Durante décadas, a juventude moçambicana ouviu a mesma frase:
“Vocês são o futuro do país”.
A frase é bonita.
O problema é que muitos jovens já começaram a vê-la como uma forma elegante de adiar soluções.
Porque quem tem vinte anos vive hoje.
Quem termina a universidade vive hoje.
Quem procura emprego vive hoje.
Quem tenta abrir um negócio vive hoje.
Quem luta para sustentar a sua família vive hoje.
A juventude não habita o futuro.
Habita o presente.
E talvez o maior erro que Moçambique esteja a cometer seja continuar a tratar a sua juventude como uma promessa distante, em vez de a reconhecer como a principal força transformadora da actualidade.
A verdade é que o país é jovem. As ruas são jovens. As escolas são jovens.
As universidades são jovens. Os mercados são jovens. Os campos agrícolas são jovens.
As plataformas digitais são jovens.
Por todo o lado encontramos jovens a estudar, a criar, a trabalhar, a empreender e a sobreviver.
Mas também encontramos uma geração que começa a carregar um peso perigoso: a sensação de estar permanentemente à espera.
À espera de emprego. À espera de oportunidades. À espera de financiamento.
À espera de reconhecimento. À espera de espaço para participar.
E a espera prolongada produz consequências profundas. Não apenas económicas.
Humanas. Psicológicas.
Quando um jovem procura trabalho durante anos sem sucesso, não perde apenas rendimento.
Perde confiança.
Quando o mérito deixa de produzir resultados visíveis, não se perde apenas competitividade.
Perde-se esperança.
Quando os sonhos permanecem sistematicamente adiados, não se perde apenas tempo.
Perde-se motivação.
E uma sociedade deve preocupar-se seriamente quando começa a perder a motivação dos seus jovens.
Porque a juventude é a fase da vida em que se sonha mais alto.
É a fase em que se acredita que é possível mudar o mundo.
É a fase em que a energia parece inesgotável.
Quando essa energia se transforma em desilusão, o país inteiro perde.
Perde inovação. Perde criatividade. Perde produtividade. Perde futuro.
Moçambique fala frequentemente dos seus recursos naturais.
Falamos do gás. Falamos do carvão. Falamos dos minerais. Falamos da terra fértil.
Mas raramente falamos da maior riqueza nacional. Os seus jovens.
E, ao contrário do gás ou dos minerais, esta riqueza não pode permanecer inexplorada durante décadas.
O talento humano tem prazo. A energia da juventude tem prazo.
As oportunidades perdidas não regressam. Um país pode recuperar dinheiro perdido.
Pode reconstruir infra-estruturas destruídas. Pode corrigir erros económicos.
Mas nunca recupera os anos roubados aos sonhos de uma geração.
Ainda assim, seria injusto escrever apenas sobre dificuldades.
Porque existe algo profundamente admirável na juventude moçambicana.
Apesar dos obstáculos, ela continua a levantar-se todos os dias.
Continua a estudar. Continua a empreender. Continua a criar. Continua a acreditar.
Continua a lutar.
Há jovens a desenvolver projectos tecnológicos.
Há jovens a transformar pequenas iniciativas em empresas.
Há jovens a inovar na agricultura.
Há jovens a destacar-se nas artes, no desporto, na ciência e no activismo social.
Todos os dias, em silêncio, milhares de jovens demonstram que o problema de Moçambique não é falta de talento.
É falta de oportunidades proporcionais ao talento existente.
Por isso, a questão da juventude não pode continuar a ser tratada como um tema secundário.
Ela não pertence apenas aos ministérios.
Não pertence apenas aos programas governamentais.
Não pertence apenas aos discursos comemorativos.
Ela diz respeito ao futuro imediato da nação.
Porque a forma como tratamos os nossos jovens hoje determinará o país que teremos amanhã.
E talvez esteja na hora de abandonar uma frase que repetimos há demasiado tempo.
Talvez esteja na hora de deixar de dizer aos jovens que são o futuro.
Porque eles já são o presente. O futuro não está à espera de nascer. Já nasceu.
Está sentado numa sala de aula. Está num campo agrícola. Está atrás de um balcão.
Está numa oficina. Está numa universidade. Está numa fila à procura de emprego.
Está numa esquina a vender para sobreviver.
Está em cada jovem moçambicano que continua a acreditar num país melhor.
A verdadeira pergunta não é se a juventude está preparada para assumir responsabilidades.
A verdadeira pergunta é se o país está preparado para confiar nela.
Porque nenhuma nação se desenvolve adiando a sua geração mais promissora.
E nenhum país alcança a prosperidade quando transforma a esperança dos seus jovens numa sala de espera permanente.
A juventude não é o futuro.
A juventude é o presente.
E cada dia que desperdiçamos sem lhe abrir espaço é um dia que roubamos ao futuro que tanto dizemos querer construir.
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 06 de Julho de 2026, na rubrica denominada O país que somos.
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