CC, murmúrios e lamentações

CC, murmúrios e lamentações – O governo do dia elegeu, no início do seu mandato, em 2015, o combate à corrupção como uma das suas prioridades. Um combate cerrado contra os corruptos e os corruptores. Contra a pequena e a grande corrupção que envolve funcionários e agentes do Estado, empresários e políticos sendo os subornos ao mais alto nível e troca de favores na ordem do dia.

O trabalho é gigantesco. Há muita corrupção em tudo que é canto. Uns, a usarem a capa de gestores de empresas próximas da nomenclatura política do país para roubarem. Outros, a cara de membros proeminentes do partido no poder e que, por via disso, se achavam intocáveis. Há muita ostentação por parte de algumas pessoas e fortes sinais de riqueza fácil. A sociedade, que se demitiu da sua responsabilidade de questionar, só fica a observar, observar, observar. São os tempos que mudaram.

Alguns cidadãos tentam remar contra a maré. Murmuram e para mostrarem a sua indignação, ameaçam, em voz baixa para evitar mal-entendidos, que não vão votar. Outros, juram a pés juntos que nem sequer vão se recensear. A justificação é uma e única: a sua vida não mudou apesar de sempre votar. Este posicionamento é tido como puro pessimismo. Que há muita coisa que foi feita e que o país mudou.

A justiça moçambicana não toma as rédeas como deve ser no combate à corrupção. Mexe pouco ou quase nada com os verdadeiros corruptos. A rede em uso para capturá-los é grossa e alguns escapam. Os mesmos cidadãos, desejosos em ver o país a mudar para o melhor e a ser igual aos outros países, murmuram. A imagem dos órgãos de administração da justiça está desacreditada.

Quando ninguém espera, tudo muda. A justiça moçambicana dá sinais de saída do fundo do poço. Há detenções atrás de detenções. Ninguém acredita no que está a acontecer. Antigos ministros envolvidos em vários casos de corrupção são julgados e condenados.

Figuras influentes da sociedade são presas, todos ou quase todos membros da “primeira classe” do partido no poder: o filho do antigo Presidente da República, Armando Guebuza, o Ndambi Guebuza, é disso exemplo.

O ex-ministro das Finanças, Manuel Chang, está detido na África do Sul. A ex-ministra do Trabalho e antiga embaixadora de Moçambique em Angola, Maria Helena Taipo. Dois antigos espiões da SISE e outros, na sua maioria ligados ao negócio da Ematum. Proindicus e Mam, são outros exemplos, da longa lista.

As detenções, invulgares entre nós, espantam ao público. Uns, não conseguem esconder a sua admiração e aplaudem à justiça pelo bom trabalho que está a fazer. Falam de mudanças que se esperavam há muito, cujo autor não tem rosto. Os procuradores, hoje actuantes, são os mesmos que pareciam adormecidos num sono profundo à espera de ordens, sei lá de quem, para fazerem algumas coisas acontecerem. O mesmo pode dizer-se em relação aos juízes & companhia.

Outros, os mais cépticos, preferem vender caro os seus aplausos. Não acreditam nas mudanças que nos parecem acontecer na justiça no nosso solo pátrio. Multiplicam vozes dizendo que tudo não passa de actos meramente eleitoralistas com o objectivo de lavar a cara da justiça moçambicana e, por tabela, do partido no poder.

É convocada para Março a III sessão ordinária do Comité Central da Frelimo, mas o ciclone Idai encarrega-se de adiar o encontro. Os ventos destruidores e mortíferos passaram. Arrasaram tudo. Há muita ajuda, interna e externa, e tudo volta à normalidade. O calendário político está apertado e as eleições estão à porta. O ciclone Kenneth surge pelo meio. Fustiga Cabo Delgado e Nampula, mas sem força suficiente para impor novo adiamento do CC que já estava marcado para 7 a 9 deste mês.

Muitas expectativas giram à volta do encontro dos camaradas. O assunto Samora (Samito) Machel “aguça” o interesse das pessoas em relação à reunião.

O problema é considerado grave e o prognóstico é extrema: expulsão do filho de Samora Machel da Frelimo. Alguém não admite a hipótese. Entende que isso pode significar a divisão da Frelimo e uma decisão dessas seria perigosa à boca das eleições gerais e das assembleias provinciais. Este quase acertou. O CC não toma posição e o assunto é arrumado debaixo do tapete onde vai arrefecer, arrefecer até se tornar politicamente insignificante.

No cair do pano do CC há moções de saudações para aqui e para acolá. Não se vai a fundo na questão da corrupção que não seja uma menção, jato, à necessidade de combate enérgico contra o mal. Não há medidas punitivas contra os destacados membros do partidão presos por corrupção.

Os observadores mais radicais acreditam na expulsão daqueles. Os mais ponderados e cuidadosos, na simples suspensão até que o tribunal se pronuncie ou pela condenação, e aí seriam expulsos, ou pela absolvição e seria levantada a suspenção.

Os murmúrios e as lamentações voltam à tona. Os mesmos de pessoas que esperavam ouvir mais do que simples declarações de coesão do partidão. É dominante o sentimento de que o CC da Frelimo perdeu uma grande oportunidade de se demarcar, em definitivo, da corrupção e dos corruptos com as cores do seu partido.

Não faz mal, fica para a próxima!

ALEXANDRE CHIURE

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Correio da manhã, na sua edição de 14 de Maio de 2019, na rubrica semanal denominada CHIBUTENSE

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