Quando a morte deixa de doer — JÚLIO CUMBE
Moçambique vive um processo silencioso e perigoso: a normalização da morte. A sucessão de acidentes de viação que ceifam vidas diariamente parece já não provocar o espanto que deveria. Entre comunicados formais, notas de pesar e estatísticas semanais, o país corre o risco de aceitar a tragédia como parte inevitável do quotidiano.
As causas são conhecidas. Estradas degradadas, veículos em condições precárias, fraca fiscalização, imprudência ao volante e ausência de políticas consistentes de prevenção formam um ciclo que se repete há anos.
Contudo, mais preocupante do que as falhas estruturais é o modo como a sociedade tem reagido: com crescente resignação.
A morte tornou-se um assunto administrativo — organiza-se o funeral, actualizam-se os dados, segue-se a vida. A dor pública transformou-se num hábito, e o número de mortos parece importar menos do que o facto de a vítima não ter sido alguém próximo. Esta indiferença progressiva revela a erosão de um valor essencial: o respeito pela vida.
Não é normal que famílias enterrem entes queridos semana após semana. Não é normal que o país acompanhe tragédias sucessivas sem exigir mudanças profundas. Não é normal que a indignação se esgote tão depressa.
Perante este cenário, alguns defendem que Moçambique precisa de se reconciliar espiritualmente, clamando por proteção divina para as estradas que tantas vidas arrancam. A dimensão espiritual é parte da nossa identidade e pode oferecer consolo; porém, não deve substituir o que a responsabilidade pública exige.
O país necessita de acções concretas: reforço da educação rodoviária, fiscalização rigorosa, políticas públicas claras, responsabilização efetiva e investimento sério em infraestrutura. Só assim será possível impedir que a morte continue a ser tratada como rotina.
A morte deve doer — não por culto ao sofrimento, mas porque cada vida perdida representa uma falha colectiva. Quando a morte deixa de doer, a sociedade perde a capacidade de mudar. E é precisamente essa capacidade que Moçambique precisa urgentemente de recuperar.
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 10 de Dezembro de 2025, na rubrica de opinião.
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