A bomba-relógio juvenil — RAFAEL NAMBALE
Falar da juventude moçambicana apenas em termos de esperança e potencial é confortável. Falar dos riscos da sua exclusão é desconfortável, mas necessário. Uma sociedade que acumula frustrações juvenis sem resposta está a construir, silenciosamente, uma bomba-relógio social.
Não se trata de ameaça retórica. Trata-se de dinâmica histórica.
Frustração acumulada não desaparece
Quando jovens estudam, esforçam-se e continuam sem perspectivas, a frustração não se dissolve com o tempo. Pelo contrário, acumula-se. E quando se acumula, transforma-se em ressentimento.
O problema não é apenas económico. É psicológico, social e político. O jovem começa a sentir que não há lugar para ele no projecto nacional. Que o futuro prometido nunca chega. Que o mérito não conta.
Esse sentimento corrói o vínculo entre o cidadão jovem e o Estado.
Juventude excluída, terreno fértil para instabilidade
A história mostra que grandes convulsões sociais raramente nascem da pobreza absoluta. Nascem da frustração relativa: quando expectativas criadas não são cumpridas.
Juventude excluída torna-se vulnerável a:
— Criminalidade organizada;
— Radicalização religiosa ou política;
— Violência urbana;
— Migração desesperada.
Não por natureza, mas por ausência de alternativas dignas.
O erro de tratar o jovem como problema
Muitas políticas públicas olham para a juventude como risco a ser controlado, e não como energia a ser canalizada. Reforçam-se discursos de ordem, mas adiam-se soluções estruturais.
Esse é um erro grave.
Juventude reprimida não se apaga. Reage.
O jovem quer trabalho, voz, dignidade e horizonte. Quando não encontra isso, procura sentido onde consegue.
Segurança sem inclusão é ilusão
Nenhuma política de segurança é sustentável se não for acompanhada de inclusão económica e social. Mais policiamento pode conter sintomas, mas não cura a causa.
A verdadeira prevenção passa por:
— Educação útil;
— Emprego produtivo;
— Empreendedorismo apoiado;
— Participação cívica real.
Sem isso, a bomba continua a contar o tempo.
A escolha que o país precisa de fazer
Moçambique está diante de uma escolha histórica:
— Ou transforma a juventude em motor de desenvolvimento,
— Ou continuará a tratá-la como variável secundária, até que o custo social se torne incontornável.
Não agir é, em si, uma decisão — e uma decisão perigosa.
Conclusão
A bomba-relógio juvenil não é a juventude.
É o adiamento sistemático das promessas feitas a ela.
Enquanto o país não alinhar educação, economia e políticas públicas com as aspirações e capacidades dos seus jovens, continuará a viver num equilíbrio frágil, sustentado mais pela paciência do que pela justiça.
Na série “Juventude moçambicana: promessa adiada”, este artigo deixa um alerta claro: ignorar a frustração juvenil hoje é pagar um preço muito maior amanhã.
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 23 de Dezembro de 2025, na rubrica de opinião.
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