A normalização da injustiça em Moçambique — RAFAEL NAMBALE

Em Moçambique, a injustiça deixou há muito de ser um choque. Hoje, é paisagem.

O que antes revoltava consciências passou a ser aceite como normal. A corrupção aberta, as decisões judiciais duvidosas, os abusos de poder nas instituições públicas e privadas, a desigualdade extrema — tudo isso já não provoca escândalo nacional. Provoca apenas cansaço.

Casos de cidadãos presos sem provas consistentes.

Processos que se arrastam por anos para os pobres, mas resolvem-se em semanas para os poderosos.

Funcionários públicos que desviam fundos e continuam livres.

Empresas que exploram trabalhadores sem qualquer consequência.

E o país segue como se nada fosse.

O poder judicial, que deveria ser o último refúgio da justiça, tem-se transformado, demasiadas vezes, em instrumento de interesses. Decisões selectivas, sentenças contraditórias e arquivamentos convenientes corroem a confiança do povo.

As instituições públicas, criadas para servir o cidadão, servem frequentemente pequenos grupos.

As privadas, em muitos casos, operam acima da lei, contando com a impunidade como aliada.

O mais grave é que tudo isto já não surpreende.

Quando surge mais um escândalo de corrupção, comenta-se por alguns dias e esquece-se. Quando mais uma injustiça acontece nos tribunais, ouve-se: “é normal”. Quando um poderoso escapa da lei, confirma-se a regra.

A injustiça foi normalizada.

E quando a injustiça se torna normal, ela deixa de ser combatida.

A normalização da injustiça em Moçambique construiu uma sociedade resignada. Uma sociedade que já não espera justiça — apenas tenta sobreviver dentro de um sistema viciado.

O abuso virou método.

A impunidade virou regra.

A desigualdade virou política silenciosa.

Hoje, quem cumpre a lei sente-se tolo.

Quem denuncia é perseguido.

Quem rouba é protegido.

E assim se educa uma geração inteira a acreditar que o crime compensa e que a honestidade é fraqueza.

Não se trata de casos isolados.

Trata-se de uma injustiça generalizada.

Está nos tribunais.

Está nas repartições públicas.

Está nos concursos viciados.

Está nas obras públicas inflaccionadas.

Está nos salários em atraso enquanto dirigentes vivem no luxo.

A injustiça tornou-se parte do funcionamento do país.

E quando um país passa a funcionar à base da injustiça, o futuro fica hipotecado.

É urgente romper esta normalização.

É urgente recuperar a capacidade de indignação.

É urgente exigir responsabilidade ao poder judicial, às instituições públicas e ao sector privado.

Aceitar o inaceitável é colaborar com ele.

Moçambique não pode continuar a viver como se a injustiça fosse destino. A corrupção não é cultura. A impunidade não é normal.

Foram escolhas feitas — e continuam a ser toleradas.

Enquanto a injustiça for aceite como rotina, o país continuará refém de um sistema que protege poucos e sacrifica muitos.

A normalização da injustiça é o maior inimigo da democracia moçambicana.

Combatê-la não é opção.

É urgência nacional.

RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 02 de Fevereio de 2026, na rubrica de opinião.

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