Chuvas, mortes e a repetição de um fracasso evitável — RAFAEL NAMBALE
Todos os anos, no mesmo período, o país assiste ao mesmo drama. As chuvas caem, os rios transbordam, bairros inteiros ficam submersos e famílias perdem o pouco que tinham — casas, bens, memórias e, em demasiadas ocasiões, vidas humanas. Em Moçambique, as inundações deixaram de ser um fenómeno excepcional para se tornarem uma tragédia recorrente, previsível e, por isso mesmo, politicamente imperdoável.
O que intriga — e indigna — é o contraste gritante entre a dor real das populações e o triunfalismo dos discursos e imagens oficiais. Enquanto comunidades choram os seus mortos, multiplicam-se comunicados, conferências de imprensa, visitas encenadas e declarações de “prontidão” e “resposta eficaz”, como se a exposição mediática bastasse para mitigar o sofrimento humano.
Não basta!
As cheias que assolam repetidamente as províncias do Sul não são uma surpresa nem um mistério técnico. As zonas de risco são conhecidas, os cursos de água são os mesmos, os bairros afectados repetem-se ano após ano. Quando a tragédia se repete com tal regularidade, deixa de ser uma fatalidade natural e passa a ser o reflexo de falhas estruturais profundas: ausência de planeamento urbano sério, sistemas de drenagem deficientes, ocupação desordenada do solo tolerada ou incentivada, e uma persistente incapacidade — ou falta de vontade política — de investir na prevenção.
O Estado, nos seus diferentes níveis — central, provincial e municipal — tem-se revelado mais eficaz a reagir à tragédia do que a evitá-la. Distribuem-se bens de emergência, anunciam-se comissões, prometem-se estudos e planos futuros. Porém, passado o período mediático, tudo regressa ao silêncio institucional, até à próxima chuva.
Este ciclo repetitivo é perigoso. Normaliza o inaceitável. Banaliza a perda de vidas humanas, sobretudo quando as vítimas pertencem quase sempre aos mesmos estratos sociais: os mais pobres, os mais vulneráveis, os que vivem onde o Estado raramente chega fora dos períodos de crise.
O triunfalismo oficial, neste contexto, não é apenas deslocado — é moralmente ofensivo. Governa-se mais para a câmara do que para o cidadão.
Confunde-se comunicação com acção, presença simbólica com responsabilidade efectiva. Mas discursos não drenam bairros, fotografias não desviam rios e declarações não salvam vidas.
A prevenção exige decisões difíceis, investimentos consistentes e coragem política. Exige reconhecer erros, corrigir prioridades e colocar a dignidade humana acima da conveniência política. Exige, sobretudo, compreender que governar é antecipar, não apenas aparecer depois da tragédia consumada.
Enquanto isso não acontecer, a pergunta continuará a ecoar com força crescente: até quando o país aceitará que a morte causada por cheias seja tratada como uma inevitabilidade sazonal? Até quando a propaganda substituirá políticas públicas sérias?
Uma nação que se habitua à tragédia corre o risco de perder o seu sentido de humanidade. E um Estado que se acostuma a gerir o luto, em vez de o prevenir, falha na sua missão mais elementar: proteger a vida dos seus cidadãos.
Enquanto a resposta do Estado continuar centrada na gestão da imagem e não na resolução estrutural do problema, as inundações permanecerão como um drama recorrente e evitável. A comunicação institucional, por mais intensa que seja, não substitui políticas públicas eficazes nem absolve responsabilidades.
O momento exige mais do que discursos e visitas simbólicas. Exige planeamento, investimento contínuo, coordenação entre níveis de governação e, acima de tudo, respeito pela vida humana. A prevenção não pode continuar a ser adiada para amanhã, quando os riscos são conhecidos hoje.
Cabe ao poder público demonstrar, com acções concretas e sustentadas, que a protecção dos cidadãos não é apenas um argumento retórico em tempos de crise, mas um compromisso permanente do Estado. O país não pode resignar-se a transformar tragédias previsíveis em rotina institucional.
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 16 de Janeiro de 2026, na rubrica de opinião.
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