Moçambique 2026: Governar pelo silêncio — RAFAEL NAMBALE

Moçambique não entrará em colapso em 2026. Mas também não entrará em reconciliação consigo mesmo. O presente ano será, sobretudo, um ano de evidência: a evidência de um Estado que continua a funcionar, mas cuja legitimidade política e moral se encontra seriamente desgastada.

Haverá governo, instituições, orçamento, parceiros internacionais e discursos tranquilizadores. Haverá crescimento macroeconómico suficiente para sustentar a narrativa oficial da estabilidade. Ainda assim, por baixo dessa superfície persistirá um desconforto profundo — a percepção difusa de que o poder já não se sustenta pelo consentimento, mas pela gestão do medo.

Nos últimos anos, consolidou-se em Moçambique uma forma particular de governação: governar pelo silêncio. Não apenas pela repressão directa, embora ela exista, mas por um mecanismo mais eficaz e menos visível — a interiorização do risco de falar. Alguns são intimidados para que muitos se calem. Alguns são presos para que todos aprendam. Alguns são mortos para que a sociedade ajuste o tom, as palavras e até o pensamento.

O silêncio torna-se, assim, um activo político. Uma verdadeira economia, com custos humanos elevados e ganhos imediatos para quem governa.

Em 2026, este modelo continuará a operar não porque seja legítimo, mas porque ainda produz obediência.

A contradição económica reforça este quadro. Os grandes projectos extractivos e energéticos permitirão ao Estado apresentar indicadores positivos. No papel, o país cresce. Na vida concreta da maioria dos cidadãos, pouco muda. O custo de vida permanece alto, o emprego formal escasso e o sector informal continua a ser o verdadeiro amortecedor social. Cresce o Estado, mas não cresce o cidadão. E é aí que a legitimidade se esgota.

O poder em Moçambique tornou-se essencialmente simbólico. Governa-se pela representação da força, não pela adesão espontânea da sociedade. Trata-se de um poder eficaz a curto prazo, mas estruturalmente frágil. Não cria lealdade, apenas conformismo. Não gera pertença, apenas sobrevivência. Quando um poder precisa afirmar-se cada vez mais pela intimidação, é sinal de que já não convence.

É neste contexto que surgem figuras e movimentos que o sistema prefere reduzir a problemas de ordem pública. Não são soluções acabadas, nem ameaças imediatas ao Estado. São sintomas. Sintomas de uma oposição tradicional esgotada, de uma juventude impaciente e de uma sociedade que começa a perder o medo simbólico. O erro do sistema é não perceber que o verdadeiro risco não está na contestação em si, mas na erosão do silêncio como instrumento de controlo.

2026 será, assim, um ano de estabilidade tensa. Um ano de acumulação silenciosa de frustrações, ideias e coragem contida. Moçambique não explodirá. Mas também não esquecerá. A história mostra que sistemas baseados no silêncio não caem quando são frontalmente atacados, mas quando deixam de ser acreditados.

O poder continuará de pé em 2026. A questão já não é essa. A questão é quanto tempo um Estado consegue governar sem renovar a sua legitimidade — sustentando-se mais no medo do que no consentimento. Porque quando o silêncio deixa de funcionar, o custo político é sempre elevado. Para quem cala. E, sobretudo, para quem manda.

RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 06 de Janeiro de 2026, na rubrica de opinião.

Caso esteja interessado em passar a receber o PDF do Correio da manhã favor ligar para 844101414 ou envie e-mail para correiodamanha@tvcabo.co.mz 

Também pode optar por pedir a edição do seu interesse através de uma mensagem via WhatsApp (84 3085360), enviando, primeiro, por mPesa, para esse mesmo número, 50 meticais.

Gratos pela preferência

Para ver a revista Prestígio de Janeiro/Fevereiro de 2026 clique este link:

https://shorturl.at/Fzp1i

Siga nos no Facebook e partilhe

https://www.facebook.com/Redactormz

Compartilhe o conhecimento

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *