Intolerância política e o teste do novo tempo — RAFAEL NAMBALE
Há momentos em que uma democracia revela o que realmente é. Não nas eleições, nem nos discursos oficiais, mas na forma como reage ao inesperado.
Em Moçambique, a política habituou-se a funcionar dentro de limites conhecidos. Os protagonistas repetem-se, as disputas seguem roteiros previsíveis e o cidadão assiste, muitas vezes, mais como espectador do que como participante. Esse conforto institucional criou a ilusão de estabilidade. Mas estabilidade sem renovação tende a transformar-se em imobilismo.
O surgimento do ANAMOLA, liderado por Venâncio António Bila Mondlane, rompe essa rotina. Não é apenas um novo partido. É o sinal de que há sectores da sociedade que já não se revêm nas alternativas tradicionais e procuram outras formas de representação.
O erro seria reduzir este fenómeno a simpatias ou rejeições pessoais. O que está em causa não é um actor político específico, mas a capacidade do sistema em lidar com a novidade.
É aqui que a intolerância política começa a manifestar-se.
Ela não surge apenas em ataques directos ou discursos inflamados. Surge na tentativa de desqualificar quem aparece fora dos circuitos habituais, na pressa em catalogar o novo como ameaça e na tendência para tratar a competição política como desordem a ser contida.
Uma democracia segura de si não teme concorrência.
Teme apenas a apatia dos cidadãos.
Quando o sistema reage ao surgimento de novas forças com desconfiança automática, transmite uma mensagem perigosa: a de que a política é um espaço reservado, não um campo aberto. E quando essa ideia se instala, a democracia deixa de ser prática colectiva e passa a ser património de poucos.
O fenómeno que hoje agita o debate público não é, portanto, apenas partidário. É um teste à maturidade democrática do país. Mostra se as instituições são fortes o suficiente para acolher a pluralidade ou se continuam dependentes de equilíbrios herdados do passado.
Nenhuma democracia se fortalece impedindo o surgimento do novo.
Fortalece-se garantindo que ele possa existir, competir e ser escrutinado.
Moçambique não precisa de uniformidade política. Precisa de confiança institucional e de uma cultura pública onde discordar não seja visto como afronta, mas como parte natural do debate.
O verdadeiro teste do nosso tempo não é saber quem vence eleições.
É saber se o espaço político permanece aberto para quem ainda não venceu.
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 23 de Fevereio de 2026, na rubrica de opinião.
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