A juventude como espelho das falhas do Estado — RAFAEL NAMBALE

A juventude moçambicana enfrenta hoje um momento decisivo da sua relação com o Estado. Não se trata de inconformismo geracional, mas de cansaço acumulado após décadas de promessas reiteradas, políticas insuficientes e oportunidades sistematicamente adiadas.

Há mais de 50 anos que o Estado promete melhorar as condições de vida do povo, criar emprego, promover o desenvolvimento e integrar plenamente a juventude na economia e na vida pública. As promessas sucederam-se, os discursos renovaram-se, mas os efeitos concretos ficaram aquém das expectativas de uma geração inteira.

O retrato actual é claro: uma juventude numerosa, cada vez mais informada, consciente dos seus direitos e profundamente frustrada. Não é uma juventude acomodada ou avessa ao trabalho. Pelo contrário, é uma juventude que quer trabalhar, empreender, criar empresas, gerar rendimento e dignidade. O bloqueio não está na falta de iniciativa, mas na ausência de políticas públicas eficazes que acompanhem essa vontade.

Empreender em Moçambique continua a ser um percurso marcado por obstáculos estruturais. A burocracia excessiva, o acesso limitado ao crédito, as taxas de juro proibitivas, a exigência de garantias irrealistas e a falta de apoio técnico criam um ambiente pouco favorável ao surgimento de novos negócios. Quando oportunidades surgem, tendem a beneficiar uma minoria ligada à nomenclatura do poder, deixando a maioria dos jovens à margem.

Os jovens não pedem favores.

Exigem condições justas e equitativas.

E isso não é concessão política — é direito.

O sistema educativo agrava este cenário. Predomina um modelo excessivamente teórico, orientado para a memorização e reprodução de conteúdos, mas distante da realidade produtiva. Formam-se diplomados sem competências práticas suficientes para responder às exigências do mercado de trabalho ou para criar iniciativas próprias. Esta desconexão entre ensino e economia real representa uma das mais graves falhas estruturais na relação do Estado com a juventude.

A exclusão económica tende a transformar-se rapidamente em exclusão política. Os jovens são frequentemente mobilizados para animar campanhas, participar em eventos e legitimar discursos, mas raramente são integrados nos espaços de decisão. O mérito cede lugar à filiação, e a participação efectiva dá lugar à encenação institucional.

Quando o esforço deixa de produzir resultados, instala-se a descrença.

E quando a descrença se generaliza, o contrato social fragiliza-se.

É neste contexto que muitos jovens deixam de esperar. A paciência esgota-se. Crescem a informalidade precária, a emigração forçada e a revolta silenciosa. Em alguns casos, surgem adesões acríticas a discursos de ruptura que prometem soluções rápidas para problemas estruturais profundos. Não por irresponsabilidade juvenil, mas porque o sistema falhou primeiro.

A juventude moçambicana não quer herdar o país tal como ele está.

Quer construí-lo, com trabalho, criatividade e dignidade.

Para isso, não bastam discursos de ocasião nem promessas recicladas. É necessária uma mudança substantiva na forma como o Estado encara a juventude: não como problema a gerir, mas como parceiro estratégico do desenvolvimento nacional.

Ignorar este imperativo tem custos elevados. Um país que não cria condições para a sua maioria jovem compromete não apenas o presente, mas o seu próprio futuro.

O tempo das promessas prolongadas esgotou-se. O que se impõe agora é responsabilidade, coerência e ação concreta — porque o futuro não se adia indefinidamente.

RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 26 de Janeiro de 2026, na rubrica de opinião.

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