O país que se sabota por dentro — RAFAEL NAMBALE

Moçambique não está a falhar por falta de discursos, planos estratégicos ou promessas solenes. Está a falhar porque se tornou um país onde a bajulação foi institucionalizada, a crítica criminalizada e a consciência empurrada para a clandestinidade. O maior inimigo do desenvolvimento nacional não está fora das fronteiras: vive dentro das instituições, circula nos corredores do poder e ajoelha-se diante de figuras, não de princípios.

Este é um país que aprendeu a sabotar-se por dentro.

A bajulação como método de sobrevivência e ascensão

O lambebotismo deixou de ser um desvio moral para se tornar método funcional de ascensão social. Em muitos sectores, não progride quem sabe mais, mas quem se curva melhor; não se promove o mérito, mas a obediência; não se valoriza a competência, mas a lealdade pessoal.

Questionar tornou-se acto de insubordinação.

Pensar criticamente passou a ser risco.

Aplaudir, mesmo o erro, converteu-se em virtude.

Este ambiente não apenas tolera a mediocridade — protege-a.

Um país governado por bajuladores

Em vários níveis da vida pública, Moçambique não é governado por ideias, mas por cordões de bajuladores que filtram a realidade antes que ela chegue ao poder. Criam-se bolhas artificiais de consenso, onde tudo parece funcionar e ninguém erra.

O líder deixa de governar com base em factos e passa a governar com base em elogios. Erros repetem-se porque foram previamente aplaudidos. Fracassos são reciclados como sucessos narrativos. O país real — com pobreza, desigualdade e frustração — fica do lado de fora da sala.

Governar assim é governar uma ficção.

Quando as igrejas perdem a voz profética

O fenómeno torna-se ainda mais grave quando invade o espaço religioso. Igrejas que deveriam ser consciência moral da sociedade passaram, em muitos casos, a reproduzir a mesma lógica de submissão ao poder político e económico.

Líderes religiosos são sacralizados.

A crítica é demonizada.

O silêncio é apresentado como prudência espiritual.

A fé, que deveria libertar, passa a domesticar. A igreja, chamada a ser sal e luz, transforma-se em ornamento do regime do dia. O silêncio diante da injustiça — inclusive em momentos decisivos da vida nacional — não é neutralidade: é cumplicidade moral.

A falência ética das elites formadas

Talvez o aspecto mais perturbador desta sabotagem interna seja o papel das elites academicamente formadas. Muitos dos actuais bajuladores não são ignorantes nem vítimas do sistema — são seus arquitectos conscientes.

Sabem quando mentem.

Sabem quando distorcem a realidade.

Sabem quando o silêncio é imoral.

Ainda assim, escolhem a bajulação porque ela rende cargos, contratos, protecção e acesso. Aqui, a submissão deixa de ser sobrevivência e passa a ser carreira. A consciência transforma-se num fardo dispensável.

O custo nacional do ajoelhamento coletivo

O preço desta cultura é devastador:

— Talentos são afastados ou silenciados;

— Decisões erradas tornam-se políticas permanentes;

— Instituições perdem credibilidade;

— A juventude perde horizonte.

Nenhum país se desenvolve quando a verdade incomoda mais do que a mentira, quando a dignidade é vista como ingenuidade e quando calar é mais recompensador do que corrigir.

Uma escolha histórica

Moçambique não será salvo por mais bajuladores bem vestidos, bem-falantes ou bem posicionados. Será salvo — se o for — por cidadãos, líderes, académicos e religiosos dispostos a pagar o preço da lucidez. Porque países não colapsam apenas por pressão externa. Colapsam quando os seus próprios filhos escolhem viver de joelhos. E nenhum aplauso, por mais alto que seja, substitui a coragem de dizer a verdade.

RAFAEL NAMBALE *

* Colunista e observador político moçambicano

Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 19 de Janeiro de 2026, na rubrica de opinião.

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