Riquezas no subsolo, pobreza à superfície — RAFAEL NAMBALE
Moçambique é um país de contrastes que impressionam qualquer observador atento.
Enquanto os rios caudalosos serpenteiam por terras férteis, as praias do Norte se estendem em cenários paradisíacos e o subsolo guarda riquezas minerais capazes de sustentar décadas de desenvolvimento, a maior parte da população enfrenta a dureza da pobreza e a insegurança diária.
O país respira riqueza, mas os seus cidadãos respiram dificuldades. Esta é uma verdade que poucos ousam dizer em voz alta: Moçambique é rico, mas está mal governado.
O nó central da má governação
O problema não está na história ou na natureza, mas na gestão política.
Décadas de governação excludente e centralizadora criaram um ciclo de promessa e frustração, onde grandes investimentos raramente se traduzem em melhorias concretas para a vida do cidadão comum.
Tomemos como exemplo os megaprojectos de gás natural em Cabo Delgado.
O consórcio liderado pela TotalEnergies investiu mais de 20 bilhões de dólares norte-americanos, prometendo transformar a economia nacional.
No entanto, enquanto os contratos e concessões garantem lucros astronômicos para investidores e o Estado, milhares de moçambicanos que vivem na região Norte continuam deslocados, sem serviços básicos e com um futuro incerto.
A má gestão não se limita ao setor energético
Projectos agrícolas e turísticos, com enorme potencial de geração de emprego, muitas vezes são executados sem planeamento inclusivo, beneficiando investidores externos ou elites locais, enquanto comunidades inteiras permanecem à margem.
Riqueza desperdiçada, oportunidades perdidas
Moçambique poderia alimentar o país e exportar produtos de alta qualidade.
As praias, ilhas e reservas naturais poderiam gerar milhões em turismo sustentável.
O gás, a electricidade e os minerais poderiam acender fábricas, escolas e hospitais.
Mas boa parte desse potencial permanece adormecido, soterrado sob burocracia, corrupção e decisões políticas curtas e imediatistas.
Enquanto isso, o cidadão comum vê sua realidade marcada pela precariedade: escolas sem condições, hospitais sem medicamentos, estradas intransitáveis e comunidades sem saneamento básico.
Exemplos concretos abundam:
• No sector agrícola, regiões como Nampula e Zambézia têm solo fértil e clima adequado, mas a falta de apoio técnico e financiamento limita a produção, deixando pequenos agricultores à margem do mercado nacional e internacional.
• Em Moçambique central, o turismo tem potencial enorme, mas hotéis e resorts funcionam quase exclusivamente para visitantes estrangeiros, sem gerar emprego local significativo.
• No sector de energia, apesar de novos projectos de hidroecletricidade, milhares de famílias rurais continuam sem acesso à electricidade básica.
Reflexão crítica
O contraste entre riqueza e pobreza não é natural; é resultado de escolhas humanas.
Escolhas políticas que ignoram a vida do cidadão, que colocam interesses privados acima do bem comum, e que medem sucesso em contratos e cifras, não em qualidade de vida.
Essa má governação corrói a confiança do povo no Estado e mantém o país preso em um ciclo de esperança e frustração.
O subsolo moçambicano poderia sustentar o desenvolvimento de toda a sociedade — mas, enquanto prevalecer a má gestão, essa riqueza permanecerá inacessível à maioria.
Gancho para o próximo artigo
O maior custo da má governação não está nos relatórios econômicos nem nas cifras de investimento.
Está nas vidas das pessoas: na juventude sem oportunidades, nas famílias dependentes de serviços públicos frágeis, na esperança que se desgasta lentamente.
No próximo artigo, vamos explorar como essa má governação impacta directamente a vida do povo, especialmente daqueles que deveriam ser o futuro do país: a juventude.
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 04 de Fevereio de 2026, na rubrica de opinião.
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