O aviso de Severino Ngwenha — RAFAEL NAMBALE
Há momentos na História de um país em que uma simples frase é suficiente para despertar inquietação colectiva. Não porque seja alarmista, mas porque toca numa memória profunda e numa realidade que muitos preferem não encarar.
Numa intervenção recente que circula nas redes sociais, o filósofo moçambicano Severino Ngwenha partilha uma frase que ouviu de um amigo num café e que, segundo ele, ficou a martelar-lhe no peito: “Moçambique está de novo cercado”.
Não é uma frase leve.
Ela faz regressar à memória os anos difíceis que o país atravessou após a Independência de Moçambique, quando a jovem nação foi empurrada para uma longa guerra, para a escassez e para uma dependência externa que marcou profundamente a vida de milhões de moçambicanos.
Hoje, argumenta o filósofo, Moçambique atravessa, novamente, um momento delicado. A guerra continua na província de Cabo Delgado, os apoios externos mudam conforme os interesses estratégicos das potências internacionais e o próprio sistema internacional parece entrar numa nova fase de competição entre grandes actores globais.
Neste contexto, Moçambique encontra-se numa posição particularmente sensível. O país possui recursos naturais cada vez mais cobiçados — gás natural, minerais raros e outras riquezas estratégicas — ao mesmo tempo que enfrenta fragilidades económicas e institucionais que podem aumentar a sua vulnerabilidade perante interesses externos.
É precisamente aqui que o alerta de Ngwenha ganha peso político e filosófico.
Segundo ele, Moçambique precisa de pensar seriamente numa unidade estratégica nacional. Não uma unidade superficial feita de slogans, comícios ou propaganda, mas uma convergência real entre diferentes forças da sociedade: lideranças políticas, sociedade civil, igrejas, intelectuais e outras forças vivas do país.
A questão central, na visão do filósofo, é simples e ao mesmo tempo decisiva: como defender a soberania de Moçambique, os seus recursos e, sobretudo, o seu povo num mundo cada vez mais competitivo e incerto?
Se o planeta caminha para uma nova fase de rivalidade entre grandes potências, e se os recursos naturais se tornam cada vez mais estratégicos nesse tabuleiro global, então países ricos em recursos, mas institucionalmente frágeis, correm o risco de se transformar novamente em palco de disputas que não controlam.
A História oferece inúmeros exemplos desse fenómeno. Em várias regiões do mundo, a abundância de recursos naturais acabou por alimentar conflitos, interferências externas e profundas desigualdades internas — um fenómeno que muitos analistas chamam de “maldição dos recursos”.
É esse risco que parece preocupar Ngwenha.
Porque, quando um país rico em recursos permanece politicamente dividido, institucionalmente frágil e estrategicamente desatento, a sua riqueza pode transformar-se mais em vulnerabilidade do que em oportunidade.
O aviso do filósofo, por isso, merece ser escutado com seriedade. Não como um exercício académico distante da realidade, mas como um convite urgente à reflexão nacional.
Moçambique não pode permitir-se regressar aos ciclos de fragilidade que marcaram parte da sua História. Não pode voltar a ser terreno de confrontação de interesses alheios. E não pode continuar a ver os seus recursos e os seus jovens arrastados para disputas que não constroem o futuro do país.
Ignorar avisos como este pode ser confortável no presente, mas, na História das nações, os alertas que não são ouvidos a tempo costumam transformar-se nos problemas que mais tarde já ninguém consegue evitar.
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 12 de Março de 2026, na rubrica de opinião.
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