Turismo moçambicano refém de políticas mal concebidas — RAFAEL NAMBALE
O turismo é, sem sombra de dúvida, um dos sectores mais promissores e estratégicos para o desenvolvimento económico e social de Moçambique.
Contudo, paradoxalmente, continua a ser tratado como um parente distante nas prioridades do Estado.
O país é abençoado com uma costa de cerca de 2.700 quilómetros, adornada por praias de beleza rara, ilhas paradisíacas, áreas de conservação com uma fauna e flora exuberantes, um povo acolhedor e uma cultura vibrante — um verdadeiro tesouro de classe mundial. E, ainda assim, o turismo nacional permanece refém de políticas mal concebidas, de estratégias incoerentes e de uma visão institucional errática.
Durante o período colonial, o turismo gozava de estatuto próprio, tutelado por uma Secretaria de Estado. Era uma pasta com autonomia, prestígio e peso político. Após a independência, porém, o sector foi rapidamente diluído, transformando-o numa simples Direcção Nacional dentro do Ministério da Indústria e Comércio. Este rebaixamento simbólico e funcional revelou, desde cedo, a visão estreita com que os sucessivos governos encararam um sector que poderia ter se tornado um dos motores da economia nacional.
Foi apenas durante o mandato do Presidente Joaquim Chissano, no ano 2000, que o turismo voltou a ganhar algum fôlego. A criação do Ministério do Turismo representou uma lufada de ar fresco e um renascer de esperanças. Com ele, foram aprovadas a Lei do Turismo, a Política Nacional do Turismo e a Estratégia para a sua Implementação, elaboradas com apoio da Organização Mundial do Turismo.
Criaram-se também instrumentos fundamentais, como a Estratégia Nacional de Marketing, Marca Moçambique, e estabeleceram-se representações oficiais do turismo moçambicano em países estratégicos como o Reino Unido, o Brasil e a África do Sul. Era, enfim, o tempo do entusiasmo e da crença num futuro promissor.
Mas, como tantas vezes acontece em Moçambique, o sol brilhou por pouco tempo. As mudanças políticas seguintes dissiparam os progressos alcançados. Durante o mandato do Presidente Filipe Nyusi, o Ministério do Turismo foi extinto e integrado na Cultura, dando origem ao Ministério da Cultura e Turismo. O resultado foi previsível: a diluição do sector, o enfraquecimento da sua autonomia técnica e orçamental e o regresso a uma gestão confusa e sem foco.
Agora, sob a presidência de Daniel Chapo, a estrutura volta a mudar — o turismo é novamente separado da cultura e integrado num novo Ministério da Economia, que agrega indústria, comércio, turismo e a própria economia. Uma amálgama burocrática onde tudo cabe, mas onde nada se afirma.
Que desenvolvimento sustentável se pode esperar de um país que muda constantemente de rumo? Onde o turismo, em vez de ser tratado como política de Estado, é usado como moeda de troca em rearranjos administrativos e políticos? Esta inconsistência institucional é um dos maiores entraves ao florescimento do sector. Falta continuidade, falta visão e, sobretudo, falta compromisso com o potencial transformador do turismo.
É doloroso observar um país com tamanha riqueza natural e cultural ser incapaz de transformar o turismo numa verdadeira locomotiva de progresso. Em vez de ser uma prioridade nacional, o turismo continua à mercê de políticas improvisadas, de interesses sectoriais e de uma crónica falta de seriedade na gestão pública.
Enquanto isso, os nossos parques, reservas e praias continuam subaproveitados; as comunidades locais, que poderiam ser protagonistas do desenvolvimento turístico, permanecem à margem; e a economia nacional perde, todos os anos, milhões de dólares norte-americanos por falta de visão estratégica.
Moçambique precisa decidir o que quer ser — um destino de oportunidades sustentáveis ou um país que assiste, impávido, ao colapso de um dos seus maiores tesouros.
Quo vadis, Moçambique?
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 09 de Janeiro de 2026, na rubrica de opinião.
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