Um país rico que desperdiça os seus jovens — RAFAEL NAMBALE
Moçambique é frequentemente descrito como um país de enormes potencialidades. Terra fértil, recursos minerais abundantes, uma extensa linha costeira, diversidade cultural e uma população jovem e numerosa. Em teoria, todos os ingredientes de um futuro próspero estão presentes. Na prática, porém, o país convive com um paradoxo inquietante: riqueza sem prosperidade e juventude sem oportunidade.
Este paradoxo não é fruto do acaso. É resultado de opções.
Abundância sem estratégia
Ao longo dos anos, Moçambique tem apostado na exploração de recursos, mas pouco na construção de cadeias de valor que integrem a juventude na produção. Exporta-se matéria-prima, importa-se produto acabado. Extrai-se riqueza, mas distribui-se pouco conhecimento e quase nenhum emprego qualificado.
Neste modelo, o jovem observa o crescimento macroeconómico sem sentir impacto na sua vida concreta. A economia cresce, mas não o puxa para dentro.
Agricultura, turismo e cultura: oportunidades negligenciadas
A agricultura continua a empregar a maioria da população, mas permanece pouco modernizada e mal valorizada. Falta tecnologia simples, assistência técnica contínua, acesso a mercados e financiamento ajustado à realidade juvenil.
O turismo, apesar do seu potencial, permanece concentrado, pouco inclusivo e distante das comunidades locais. A juventude poderia ser guia, promotora cultural, empreendedora de serviços, mas raramente é preparada ou integrada de forma estratégica.
A cultura, rica e diversa, é vista mais como ornamento do que como sector económico. Produtos culturais poderiam gerar rendimento, identidade e emprego, mas continuam à margem das políticas de desenvolvimento.
Recursos naturais e juventude excluída
Mesmo nos sectores extractivos, onde se concentra grande parte do investimento, a juventude local raramente é protagonista. Falta formação técnica específica, transferência de competências e políticas de conteúdo local robustas.
O resultado é uma sensação generalizada de exclusão: a riqueza passa, mas não fica.
O custo de desperdiçar uma geração
Desperdiçar juventude não é apenas injusto. É economicamente irracional. Cada jovem fora da produção representa menos crescimento, menos inovação, menos coesão social.
Países que avançaram compreenderam uma verdade simples: não há desenvolvimento sustentável sem juventude produtiva. Ignorá-la é comprometer o futuro antes mesmo de ele começar.
Conclusão
Moçambique não é um país pobre em recursos. É um país pobre em estratégia inclusiva. Enquanto a riqueza natural não se traduzir em oportunidades concretas para os jovens, o desenvolvimento continuará a ser uma promessa distante.
Na série “Juventude moçambicana: promessa adiada”, este artigo expõe um dos maiores paradoxos nacionais: um país com tudo para dar certo, mas que insiste em deixar a sua maior riqueza — a juventude — à margem do progresso.
* Colunista e observador político moçambicano
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 22 de Dezembro de 2025, na rubrica de opinião.
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