O altar — CÉSAR NHALIGINGA
Mesmo na manhã de sexta-feira, trovejava e caia fraca chuva, talvez fosse para abençoar o dia, uma vez ser data marcante na familia do regulado. Em sua residência, tendas eram esticadas, ao som de instrumentos musicais o pessoal do protocolo ornamentava os cantos para manter os convidados ao ânimo desejado.
Um e outro duvidava da temperatura, visto que a zona estava toda paralisada, tal que se fazia o ritual para retardar a chuva, entoava-se canções do tradicionalismo e dançava-se de forma rimada. Eram evocados os espíritos a viva voz, farinha espalhada, frutas atiradas e faca espetada ao chão, junto de bebida alcoólica para reactivar os defuntos.
O tempo foi mudando a cada dizer do regulado, de cinzento a azul, tornou a cor do oceano (céu limpo), o qual era esperado naquele momento.
A batucada não parava, cabritos, galinhas e patos sacrificados para mais fortalecimento da cerimónia. A felicidade era maior naquela casa que do lobolo, tornar-se-ia em casamento.
A noiva era “ovacionada” de forma pomposa, toda diferente, maquilhada até aos pés. Rodeada pela vizinhança, amigas e demais convidados, que de tanto agitarem o chão iam levantando poeira, removendo assim o produto colocado na sua face, uma vez a pele sofrer obstrução pela má aplicação deste.
Com total calor que se fazia sentir, o aplicativo ia saindo lentamente e, o brilho da pele cada vez mais borrada.
Não via a hora de chegada do seu homem que por si própria já se sentia diferente uma vez o seu visual tornar-se real sem que estivesse junto do seu príncipe. Não faltavam gritarias naquela residência, flores para cá e para lá, esteiras no chão todo para evitar sujar os recondicionados sapatos amarelos daquela menina.
Já se vão duas horas, sem desespero, as buzinas de viatura soavam pelo bairro, era a chegada de equipe de avanço (acompanhantes), para anunciar a grande novidade aos convidados do regulado. O mais velho da família batia o tambor com toda força, tocados sinos, a recepção estava totalmente preparada, as crianças pulavam dum lado para o outro, em simultâneo cantavam e tocavam apitos, batuques e aplausos.
No entanto, entrava o noivo, estiloso e sorridente, quem viu a sua parceira loira de tanta pintura, sentada na cadeira meia tímida, ouvindo os “culunguanas” e vendo a agitação dos presentes.
A alegria fluía no seio de todos eles. Na aldeia realizava-se a maior festa com a presença de toda estrutura da comunidade, crentes e religiosos se divertiam junto dos convidados. As mulheres de capulana, sorridentes e cobertas de lenço na cabeça, desfilavam cantando a alegria a nora da casa que seria levada à outra família.
Estavam todos empenhados na organização do banquete, movidos e movimentados de sons de tambores, iam consumindo “xibuko” ou “cabanga”, trazido este da zona norte pelo tio da sortuda que era tomada por debaixo da frondosa árvore pertencente a família do régulo que despedia uma vez, a partir daquela data ela pertencer a outra família.
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 30 de Outubro de 2025, na rubrica de opinião denominado OPINIÃO
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