A pobreza em Moçambique — JÚNIOR RAFAEL

A pobreza em Moçambique não é um acidente, nem um azar histórico: é um projecto político. Uma engrenagem cuidadosamente lubrificada que garante a continuidade de privilégios para uns poucos e a resignação silenciosa da maioria. É um dispositivo de controle social, tão eficiente que já não precisa de grilhões visíveis; basta o peso da sobrevivência diária para domesticar sonhos e calar revoltas.

Dessa máquina nasceram os lambebotas: figuras que, entre sorrisos servis e discursos vazios, perpetuam a ordem estabelecida. Eles não questionam; antes, reproduzem. Tornaram-se símbolos de uma elite submissa, cuja glória maior é a sombra do poder.

Nesse cenário, os académicos, que deveriam ser a consciência crítica da nação, preferiram a conveniência. Muitos abandonaram a academia em seu sentido mais nobre e abrigaram-se no conforto do senso comum. Trocaram o ofício da reflexão pelo comércio da opinião. Passaram a vender o cérebro como mercadoria barata, em vez de oferecer à sociedade o rigor da análise e a coragem da denúncia.

A igreja, que outrora poderia ser um abrigo espiritual e um espaço de resistência, também foi capturada. As homilias, em vez de alimento para a fé e para a justiça, ecoam como discursos domesticados, moldados ao gosto dos mesmos que administram a pobreza como projeto. O altar, assim, tornou-se extensão do palanque.

E a sociedade? Refém. Refém do que não sabe, do que não compreende, do que nunca lhe foi permitido conhecer. Refém da fome e da esperança manipulada. A ignorância, cultivada como plantação de algodão no tempo colonial, floresce como política de Estado.

Eis o retrato: um país de potencialidades imensas, mantido pequeno por projecto. Uma gente criativa e resistente, empurrada para a resignação. E, no meio de tudo, o silêncio cúmplice que ecoa mais alto do que qualquer discurso oficial.

Agora resta-nos decidir, se queremos ficar assim aplaudindo o vazio ou tomarmos posicionamento para salvaguardar o pouco que existe. Um pouco da nossa honra, um pouco do nosso suor, um pouco da nossa moçambicanidade, um pouco de nós…

JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA

Para ver a revista Prestígio de Julho/Agosto de 2025 clique este link:

https://tinyurl.com/4yjj85ru

Siga nos no Facebook e partilhe

https://www.facebook.com/RedactormzA pobreza em Moçambique — JÚNIOR RAFAEL

Compartilhe o conhecimento

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *