A tocha milagrosa e o povo desunido
Lançaram a “tocha da chama da unidade” em Moçambique. Uma tocha, meus senhores! Como quem diz: “agora sim, vai!” Porque nada une mais um povo do que uma boa caminhada simbólica com uma chama acesa. É quase como acender uma vela para ver se volta a luz… da esperança.
Mas a pergunta que não quer calar (e nem cochila): unir o quê, exactamente? Porque, sinceramente, tentar unir Moçambique com base em discursos é como tentar colar vidro com cuspe — vai brilhar por dois segundos e depois corta todo mundo. A tal “unidade” sempre esteve mais presente nos panfletos do que nos pratos do povo. Aliás, unidade sem pão é só performance.
A tocha vai andar por aí, cercada de câmeras, sorrisos treinados e discursos que dariam inveja até ao Oscar. Enquanto isso, o povo? O povo observará de longe, com aquele olhar de quem já viu essa novela e sabe que o final não é feliz, só repetido. Talvez até torcendo para que dessa vez seja diferente — tipo milagre. Tipo ressuscitar a esperança. Mas, vamos combinar, é mais fácil esquentar um cadáver do que unir um povo que, mesmo vivo, já perdeu a fé.
O povo está cansado. Não de andar, porque andar ele já anda — e muito, atrás de escola, hospital, emprego. Está cansado de promessas. De slogans. De campanhas com bandeiras coloridas, mas bolsos vazios. A unidade, meu caro, não se acende com tochas. Se constrói com justiça, pão e verdade.
E quem segura a tocha? Ah, os mesmos de sempre. Bem vestidos, bem-falantes, bem longe da realidade. Os que têm casa iluminada pela eletricidade que nunca falta e a geleira cheia. A chama, para eles, é só mais uma selfie no feed.
Mas talvez — só talvez — a chama pegue. Não no coração do povo, mas nas redes sociais, onde tudo é tendência por 24 horas. Depois disso, a chama apaga. E voltamos à escuridão de sempre: promessas sem ação, discursos sem consequência, tochas sem calor.
E o povo? O povo continua acendendo sua própria chama: a da resistência. Porque essa, sim, não precisa de cerimônia.
JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA
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