Presidente recebe chave da cidade de Maputo”, mas será que ele já não tem a senha do país?
A cerimónia estava marcada para um certo horário, mas, como já é tradição, o evento atrasou. O povo de Maputo, que já estava acostumado com a pontualidade das coisas que nunca acontecem, se acomodou nas bermas das ruas, discutindo sobre os temas mais importantes do dia: o calor insuportável, a falta de sombra nas paragens de chapas, o preço das casas de banho na urbe, e, claro, a inusitada entrega da chave da cidade ao Presidente da República.
O protocolo foi seguido à risca. O autarca, com cara de quem não sabia o que fazer com a chave (provavelmente uma réplica de plástico que ele ganhou numa loja de souvenirs), fez uma reverência e a entregou ao Presidente. Ali estava ele, o homem que gerencia o destino de toda uma nação, recebendo o “símbolo” da cidade que, teoricamente, já deveria ser sua. A plateia, com seus smartphones a postos, registava o momento histórico com a mesma empolgação de quem vê a abertura de um supermercado.
“Mas espera”! Você pode estar se perguntando: “não é o Presidente que tem, digamos, o controle absoluto sobre o país? Ele já não tem as chaves de todos os cofres, prédios e, pelo visto, até dos corações dos cidadãos? Por que ele precisa de uma chave para Maputo?”
Ora, amigos, a explicação é simples: ele não estava recebendo a chave da cidade, mas sim um lembrete de que ele não tem a senha do país. É claro que, se tivesse, não precisaria de mais nada! A chave, meus caros, é a senha da solidariedade urbana, a senha que abre as portas para uma cidade que, como todas as outras, está cada vez mais no limite entre o caos e a beleza.
Os repórteres estavam aflitos, como se o Presidente tivesse realmente ganhado um castelo medieval. Eu fiquei me perguntando: será que ele também vai ganhar um mapa da cidade? Talvez uma pizza grátis por mês em alguma pizzaria local? Ou, quem sabe, um vale-transporte para não precisar enfrentar o trânsito que ele mesmo ajudou a piorar?
Parece que a chave que ele recebeu não é só para abrir portas, mas para abrir sorrisos. Afinal, não podemos esquecer que Maputo é uma cidade que, como tantas outras, possui o dom de rir de si mesma. Aquela cidade que não quis devolver os camiões de recolha de lixo do município de Chimoio. E se o presidente vai sair por aí com a chave de Maputo, pelo menos ele terá algo para abrir a porta de um futuro que está sempre, aliás, a um passo de ser imprevisível.
Em algum momento, quem sabe, ele até devolve a chave – ou a troca por uma senha melhor.
Porque, no fim, qual é a verdadeira chave de Maputo? Será que é o presidente? Ou será o famoso “CTRL+ALT+DEL” para reiniciar tudo?
Ah, as chaves da vida…
JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA
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