Diálogo com quem? — JÚNIOR RAFAEL

O governo moçambicano voltou a pronunciar a velha promessa: “Vamos privilegiar o diálogo”.  Mas a pergunta que atravessa a garganta do povo é uma só: diálogo com quem? Com o suposto “criminoso”? Com o adversário político? Com o povo abandonado? Ou com as vozes que se recusam a ser domesticadas pelo medo?

Há algo de profundamente cínico quando um governo, que por anos se mostrou surdo aos apelos da sociedade civil, aos protestos pacíficos, às denúncias de violência policial e ao grito dos jovens nas redes sociais, agora aparece com um discurso conciliador. Cínico, porque esse mesmo governo não reconheceu os mortos de 2008, 2010, 2016 ou 2024. Não reconheceu que havia algo para dialogar quando a juventude marchou contra o custo de vida, contra os abusos, contra a corrupção, e foi recebida com gás lacrimogéneo e balas de borracha e verdadeiras?

A Procuradoria-Geral da República (PGR), braço judicial que deveria defender os interesses do Estado e da Justiça, há muito abandonou esse papel para se tornar um instrumento político. Já não defende o Estado, mas sim o governo de turno. A criminalização de opositores, a selectividade nas investigações, a morosidade nos casos que envolvem figuras do partido no poder contrastam brutalmente com a agilidade persecutória contra dissidentes, ativistas e opositores. Quando a PGR acusa, já não se sabe se é por justiça ou por conveniência.

E agora, quando a temperatura social sobe, quando as eleições se aproximam, quando a legitimidade se esvai, o governo surge com a cartada do “diálogo”. Mas o povo não é tolo. A memória ainda está viva. Que diálogo é possível num cenário onde só uma voz tem microfone e as outras são silenciadas? Onde o poder se fecha em conferências de imprensa e comunicados unilaterais, e não em assembleias populares ou mesas plurais?

Como será o formato desse diálogo? E mais importante: qual é a pauta? Até agora, o que se tem são frases soltas, sem conteúdo, sem roteiro, sem atores claramente identificados. Em vez de abrir espaço para a pluralidade, o governo parece ensaiar um monólogo. O risco é transformar esse “diálogo” num espetáculo vazio, onde se finge escutar para manter tudo como está.

E há ainda uma questão jurídica inescapável: se alguém incita ao crime de desobediência coletiva, ao terrorismo ou convoca publicamente à insurreição, não é o diálogo o instrumento indicado — mas sim o julgamento, como prevê a lei. E se for comprovado o crime, que se aplique a sentença correspondente. O que não se pode aceitar é que, seletivamente, se use o discurso do diálogo para proteger aliados ou neutralizar adversários, ao passo que cidadãos comuns ou ativistas são reprimidos, processados e silenciados.

Se o passado ensina algo, é que em Moçambique o “diálogo” é muitas vezes um eufemismo para manipulação. Não é partilha, é imposição. Não é escuta, é cálculo político. A história mostra que o “diálogo” só aparece quando o regime sente o chão estremecer. E mesmo assim, em vez de abrir espaço para uma verdadeira transição democrática, prefere encenar normalidade.

Portanto, o que se anuncia como gesto de abertura, pode muito bem ser hipocrisia institucionalizada. Um teatro cínico para legitimar decisões já tomadas, afastar a pressão internacional e ganhar tempo até que o ciclo eleitoral passe. Mas o povo não pode aceitar ser figurante nesta peça. O povo precisa exigir um diálogo real: com transparência, com justiça, com escuta mútua e com todos os atores — inclusive os que pensam diferente.

Moçambique precisa mais do que palavras. Precisa de um pacto honesto com o futuro. Um pacto onde o poder deixe de ser propriedade de poucos e passe a ser um bem comum. Até lá, o povo tem todo o direito de duvidar — e resistir.

JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA

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