Unir-se ou cair: a urgência dos Estados Unidos da África — JÚNIOR RAFAEL

Vamos esperar Traoré ser derrubado para, só então, os africanos se levantarem? O destino da África não pode continuar sendo decidido por golpes, interferências externas e reacções tardias. A pergunta não é nova, mas nunca foi tão urgente: por que, diante de tantos blocos geopolíticos consolidados — como os Estados Unidos da América ou a União Europeia —, a África permanece fragmentada, vulnerável e, muitas vezes, servil a interesses que lhe são historicamente alheios? A resposta exige coragem: falta um projecto político unificado de soberania continental, falta a construção dos Estados Unidos da África.

Os Estados Unidos surgiram da união de colônias britânicas para formar um império moderno. A União Europeia se articulou após séculos de guerras, e hoje impõe sanções, define regras económicas globais e estrutura sua defesa comum. Esses blocos souberam transformar divergências internas em coesão política, em nome de interesses estratégicos. Por que a África, que compartilha não apenas geografia, mas feridas coloniais, línguas comuns e uma história de resistência, ainda se mantém presa a fronteiras artificiais impostas por potências colonizadoras no século XIX? Até quando seremos 55 vozes fragmentadas em vez de uma só força que fala em nome do povo africano?

A África foi colonizada por europeus, explorada por multinacionais e continua a ser saqueada por dinâmicas neocoloniais modernas — travestidas de acordos de cooperação, empréstimos internacionais e “ajuda humanitária” que, no fundo, reforçam a dependência. A juventude africana migra em massa, desesperançada. As riquezas do continente — do cobalto congolês ao gás moçambicano — seguem beneficiando poucos, enquanto a maioria vive em miséria. E mesmo nos países onde surgem vozes corajosas, como Ibrahim Traoré em Burkina Faso, o apoio continental é tímido, quando não ausente. Esperamos que esses líderes tombem sozinhos, como mártires isolados, em vez de enxergá-los como sinais de uma nova possibilidade continental.

Unir-se não significa homogeneizar, mas articular as diferenças em torno de um projecto comum. É hora de os países africanos assumirem uma segunda, ou talvez terceira libertação: a primeira foi contra o colonialismo formal; a segunda, contra as elites locais cooptadas; e a terceira, que precisa começar agora, é pela soberania real — econômica, militar, epistêmica e cultural. Criar os Estados Unidos da África não é uma utopia nostálgica de Nkrumah ou um romantismo pan-africanista do século XX. É uma necessidade histórica concreta diante da ordem mundial excludente.

Essa união deve partir de uma nova geração de lideranças, que não se contentam em negociar migalhas com o FMI ou a ONU, mas que falem em nome de um projecto afrocentrado. Requer também o fortalecimento de instituições continentais — como a União Africana — para que deixem de ser apenas espaços diplomáticos e passem a operar com autoridade política e militar, tal como fazem a OTAN ou a Comissão Europeia. Isso inclui a criação de um parlamento africano vinculante, de uma moeda única, de uma política de defesa continental, de uma agência de inteligência africana, e de um sistema de redistribuição de recursos minerais e estratégicos entre os países.

Mais do que um pacto político, essa união deve ser um pacto espiritual entre os povos africanos, conscientes de sua história comum e do seu destino compartilhado. Os africanos não podem mais esperar o colapso de líderes progressistas para agir. É preciso reconhecer, apoiar e proteger quem ousa resistir — como Traoré, como Sankara, como Lumumba — antes que seus sonhos sejam assassinados. 

A unidade não é só um acto de resistência, mas a única via possível para a libertação definitiva da África. Porque, se não nos unirmos agora, seremos derrotados um a um. Mas se formos um só corpo, um só povo, um só projeto — a África renascerá. E não mais como periferia do mundo, mas como centro de sua própria história.

JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA

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