O grito calado do Quilômetro 15 — JÚNIOR RAFAEL
Na periferia de Maputo, onde as ruas não têm nome e os silêncios carregam mais peso que as palavras, uma escola leva o nome de uma distância: “Quilômetro 15”. Foi ali que o tempo se partiu para uma adolescente de 15 anos. Entre goles de álcool e uma ausência brutal de limites, quatro adolescentes de 14 a 15 anos arrastaram não apenas uma colega — arrastaram também a dignidade, a infância e a esperança de que ainda restasse um traço de humanidade onde se aprende a viver.
Não se trata mais de perguntar onde estavam os adultos, o Estado, a escola ou as famílias. A pergunta mais dura, a que ninguém quer ouvir, é: o que estamos formando dentro desses jovens?
A violência não brota do nada. Ela é cultivada no quotidiano: no abandono da educação, na invisibilidade dos afectos, nas casas onde falta tudo menos a TV ligada, nas esquinas onde a cerveja é mais acessível que um livro. O caso do “Quilômetro 15” é brutal, sim, mas não isolado. É sintoma de um colapso: social, moral, institucional.
E quando o agressor tem 14, 15 anos, a dor se dobra. Porque não há justiça plena. Só há perda. A vítima carrega as marcas de um trauma irreversível. Os agressores, ainda em formação, não são monstros prontos, mas também não podem continuar soltos no mundo como se nada tivessem feito.
É aí que Maputo, Moçambique, e todos nós, como sociedade, paramos no asfalto quente do “Quilômetro 15”, sem saber para onde seguir.
Diante do horror vivido pela jovem no “Quilômetro 15”, muitos exigem punição. Outros, revolta. Mas o que se propõe aqui é mais difícil, mais corajoso: reeducar.
O Estado moçambicano precisa criar uma penitenciária para menores, sim — mas não como depósito de corpos, e sim como uma incubadora de futuros. Um espaço onde quem errou gravemente pague pelo que fez, mas também tenha a chance de reconstruir o que foi destruído dentro de si.
Essa instituição deve conter:
Uma escola interna até o ensino médio, para que nenhum jovem saia sem aprender a pensar, questionar e transformar.
Um campo de futebol, não como distração, mas como parte de um projecto maior de disciplina, convivência e saúde mental.
Oficinas, psicólogos, orientação vocacional.
E, acima de tudo, a certeza de que esses jovens serão acompanhados com firmeza e humanidade.
A impunidade gera reincidência. Mas o encarceramento sem propósito gera monstros. O que precisamos é de um terceiro caminho: o da justiça restaurativa aliada à formação cidadã. Uma penitenciária de menores com estrutura pedagógica e afectiva pode ser o primeiro passo.
O “Quilômetro 15” não pode ser apenas o nome de um lugar onde tudo foi perdido. Pode ser o marco zero de uma nova política: aquela que encara o crime juvenil não só como caso de polícia, mas como urgência educativa e reparação social.
Ou reeducamos… ou continuaremos contando cadáveres da infância que matamos por omissão.
JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA
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