Os que fingem não ver — JÚNIOR RAFAEL

Tem dias em que a justiça parece estar de olhos vendados demais. Não aquela venda de estátua, que representa imparcialidade. Falo de outra: uma venda de conveniência, aquela que escolhe quando ver e quando virar o rosto.

Outro dia li um desabafo nas redes. Alguém dizia que não viram os blindados atropelando cidadãos, que não viram quando a polícia fugiu com as urnas de voto, que não ouviram quando alguém delirou dizendo que Gaza estava em 2040. E eu parei ali. No meio da correria do dia, no meio das notificações, aquele texto bateu diferente.

É curioso como algumas coisas parecem acontecer no escuro. Há sempre um lampejo de indignação seletiva, uma pressa em apontar o dedo para uns e uma paciência infinita com os erros de outros. Como se houvesse dois tipos de justiça: uma com sirenes ligadas e mandados em mãos, e outra, adormecida, bocejando diante do caos.

Mas o que li ali não é só denúncia. É também profecia e prece. O autor clama por justiça divina, e fala de Babilônia, de Hitler, desses gigantes que pareciam invencíveis até que não eram mais. Porque, no fim, todo império ruge antes de ruir. Toda arrogância tem prazo de validade. E Deus, dizem os antigos, tarda… mas não falha.

Naquele texto, há também um recado para quem vive: “Em cada época, as sociedades fazem suas histórias e seus heróis”. Me peguei pensando: quem serão os heróis da nossa geração? Serão os que gritam nas ruas ou os que resistem em silêncio? Serão os que apontam os erros ou os que simplesmente se recusam a fingir que não viram?

Porque é isso, no fim: fingir que não viu. Quantas vezes o Estado fingiu? Quantas vezes nós mesmos, diante de um absurdo, apenas baixamos os olhos?

Talvez, daqui a muitos anos, olhem para esse tempo com o mesmo espanto com que hoje olhamos para os anos de chumbo, para as ditaduras, para os regimes que deixaram cicatrizes. Talvez perguntem: “como deixaram isso acontecer?” E talvez a resposta seja: porque muitos viram, mas preferiram calar.

Mas há quem escreva, mesmo no escuro. Há quem clame, mesmo sem eco. E há quem creia que Deus ainda abençoa esta nação — não por causa dos que mandam, mas por causa dos que ainda sonham.

JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA

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