O professor e a farsa da valorização — JÚNIOR RAFAEL
Celebrar o Dia do Professor tornou-se um ritual hipócrita. Fala-se de “heróis da nação”, de “guardiões do saber”, de “pilares da sociedade”, mas o eco dessas palavras não paga contas, não garante respeito e muito menos dignidade. O professor em Moçambique — e em tantos outros lugares — vive na fronteira entre a esperança e a humilhação. Trabalha com a missão de formar cidadãos, mas é tratado como se sua profissão fosse um favor e não um direito fundamental do país.
O discurso da valorização é uma encenação. Enquanto se publicam mensagens de parabéns nas redes sociais, milhares de professores enfrentam salários miseráveis, progressões congeladas e promessas de mudança de carreira que se tornaram mitos de corredor. Há diplomas que jazem nas gavetas como relíquias de uma fé perdida: símbolos de um esforço que o Estado insiste em ignorar. A ironia é cruel — estudam para ascender, mas a escada foi retirada.
E assim o professor, aquele que deveria ser o cérebro da nação, é empurrado para a informalidade. Muitos tornam-se motoqueiros, vendedores ambulantes, sobreviventes multifuncionais. Não por escolha, mas por necessidade. O país os transformou em acrobatas da sobrevivência, equilibrando giz numa mão e o desespero na outra. O resultado é um sistema educativo em colapso silencioso: salas superlotadas, desmotivação generalizada e um ensino que, em vez de libertar, aprisiona.
Um professor sem o mínimo é um risco colectivo. Mal pago, maltratado e desrespeitado, ele carrega nas costas o peso de uma missão impossível: educar quando o próprio sistema o mantém na ignorância estrutural. E aqui está a tragédia — quando o professor não tem condições de ensinar com dignidade, o país inteiro desaprende. Em vez de formar cidadãos, forma sobreviventes sem rumo.
A sociedade, cúmplice e distraída, limita-se a repetir slogans vazios sobre a importância da educação. Mas valorização não é discurso — é política concreta, é salário justo, é respeito institucional, é progressão merecida. O que se vê, contudo, é o contrário: governos que falam em desenvolvimento enquanto mantêm seus educadores no limbo da precariedade.
Há quem diga que o professor é herói. Mas heróis cansam. Heróis adoecem. Heróis também têm contas para pagar. O heroísmo forçado é apenas o disfarce de um sistema covarde que se apoia na vocação alheia para esconder sua incompetência.
Neste Dia do Professor, o aplauso fácil é um insulto. O que se exige não é poesia barata, mas justiça. Porque sem professores valorizados, não há futuro possível — apenas gerações condenadas a repetir o fracasso de quem as ensinou a sobreviver, mas não a sonhar.
JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA
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