Quando eu era menino — JÚNIOR RAFAEL

Quando eu era maluco, achava que o sol me seguia. Bastava caminhar alguns metros, virar uma esquina ou correr pelas estradas de terra que o calor do astro parecia me acompanhar como se fosse um cão fiel. Mais tarde, depois do tratamento – e de algum amadurecimento –, descobri que cada rua tem o seu próprio sol. O mundo não girava ao meu redor; eu é que girava dentro dele.

Na infância política, também era assim. Pensava que o partido era maior que o Estado. Imaginava que o salário dos funcionários públicos vinha da bondade do partido, e não dos impostos pagos com o suor dos trabalhadores. Acreditava que os líderes partidários eram pais da pátria, que distribuíam benesses por altruísmo. Ingenuidade? Sim. Mas era o pensamento de muitos de nós, alimentado por uma propaganda subtil, persistente e eficaz.

Hoje entendo que o partido – este ou aquele – não é o coração do país. Na melhor das hipóteses, deveria ser o cérebro que ajuda a coordenar. Na pior, como muitas vezes acontece, se torna parasita que se agarra ao corpo do Estado, suga seus recursos, distorce suas funções e depois ainda se apresenta como salvador. O partido que controla demais, corrompe; o Estado que se deixa controlar, apodrece.

O problema é que em muitos países, especialmente onde a democracia é jovem ou sequestrada, o partido governa como se fosse dono do Estado. Subverte as instituições, domestica a justiça, manipula a comunicação social e infantiliza o povo com promessas vazias. E quem questiona, é chamado de maluco, como eu fui um dia.

Mas crescer, politicamente, é aprender a fazer distinções. É perceber que a rua tem o seu próprio sol – que o serviço público tem que estar a serviço do povo, e não de legendas. Que a crítica constrói mais que a bajulação. Que a pátria não é o partido, e quem confunde os dois, não entende nem de pátria, nem de política.

Como bem escreveu o apóstolo Paulo em sua carta aos Coríntios:

“Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.” (1 Coríntios 13:11)

Hoje, como homem e cidadão, escolho não mais ser maluco e menino. E você?

JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA

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