Sonho asfáltico — JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA
Sonhei, meus caros, sonhei alto. Não foi com riqueza, não foi com amores impossíveis — sonhei com máquinas de reabilitação da estrada Rapale-Muite. Sim, aquelas belezinhas de ferro, cuspindo poeira, roncando como dragões mecânicos em plena epopeia civilizacional. O coração quase que fez marcha-ré de emoção.
Mas aí acordei.
E descobri que a realidade continua sendo esse tapete de buracos, esse festival de suspensão arrebentada, esse convite ao ortopedista. Acordar, neste caso, foi como sair de um banquete de reis para encontrar uma tigela de xima sem molho. Humilhante.
Eis a tragédia: em vez de tractores, o que temos é a procissão dos chapas aos zigue-zagues, desviando crateras que poderiam, perfeitamente, ser tombadas como patrimônio geológico nacional. A estrada não é via de transporte — é parque temático de rali, só que sem troféu no fim.
Continuarei sonhando até quando? Eis a pergunta. Talvez até quando os políticos descobrirem que buracos não votam. Talvez até quando alguém inventar asfalto em pó, solúvel, que a gente possa despejar por conta própria. Ou até quando o próprio Deus, cansado de nossos pedidos, mandar anjos-pedreiros com betoneira celestial para tapar, de uma vez por todas, essa vergonha.
Enquanto isso, sigo no meu transe noturno. Porque sonhar com estrada asfaltada virou o novo luxo, a nova ostentação, a nova promessa eleitoral. O meu pesadelo não é a lama na época da chuva, mas sim a esperança eterna de que agora vai. O problema é que nunca vai.
Moral: em Moçambique, as estradas não acabam. E nem começam.