Tiros de honra, Disparos de hipocrisia
Ele não era quadro da Unidade de Intervenção Rápida (UIR), disseram. Mas os trinta tiros que atravessaram seu corpo não deixaram espaço para dúvidas: não foi um assalto, não foi um erro — foi execução. Zandamela foi assassinado, crivado de balas com a frieza de quem carrega o poder como licença para matar. Como se não bastasse o sangue derramado, veio a tentativa de apagamento: a negação pública da sua ligação com a corporação que ele serviu. Uma tentativa torpe de reescrever a verdade diante das câmeras, enquanto o corpo ainda não havia esfriado.
Mas a hipocrisia tem péssima pontaria. No dia do seu enterro, os mesmos que negaram sua identidade policial empunharam canhões e dispararam trinta vezes em sua homenagem. Uma salva de tiros não para consolar a família, mas para confundir a opinião pública, para tentar maquiar a barbárie com um gesto cerimonial. Foi ali, diante do túmulo aberto, que a farsa se revelou: se ele não era quadro da corporação, por que os rituais reservados a oficiais de alta patente? Por que as balas da despedida, quando as da execução já tinham feito seu trabalho?
O silêncio do Estado ecoa mais alto do que os tiros. A cada nota oficial desmentindo o que os olhos viram, cresce a certeza de que a verdade virou inimiga da segurança pública. O porta-voz da polícia, com olhar seco e voz treinada, tenta nos convencer de que o homem morto era um estranho. Já os que estavam no cemitério, com lágrimas nos olhos e uniformes engomados, pareciam sepultar um dos seus. Quem mente? Quem manipula? E mais ainda: quem manda matar?
Há algo podre nas instituições quando a verdade é tão descartável quanto a vida de um Homem. Quando um policial pode ser ovulado sem piedade e depois desonrado em cadeia nacional, temos que nos perguntar: o que se perdeu primeiro, o valor da vida ou a vergonha na cara? A mentira como método de governo é um veneno lento, que vai corroendo as estruturas até que nada mais se sustente — nem a lei, nem a justiça, nem a confiança pública.
Zandamela não foi apenas morto. Ele foi traído. E seu assassinato é mais do que um crime — é uma confissão. Uma confissão do Estado que mata para silenciar, que mente para ocultar, e que atira para esconder o medo que tem da própria verdade. Quando o abuso de poder vira rotina e a impunidade se veste de farda, cada cidadão está sob mira. Hoje foi ele. Amanhã, quem? Todos estamos na mira, fale ou se cale, um dia chegará sua vez.
Que não nos calem os tiros. Que não nos silenciem com salvas. Que a memória de Zandamela nos lembre que há algo mais perigoso que o crime: o Estado que o comete e ainda se aplaude por isso.
JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA
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