O mau exemplo dos mais-velhos— JÚLIO CUMBE
Não é novidade para ninguém, iletrados ou letrados, que há uma perda espiral de valores no país.
Diante desta dura e sufocante realidade, coloca-se a questão: de quem é a culpa? Antes de tudo, é preciso deixar claro que todos somos culpados. Ainda assim, a quem vamos responsabilizar? A geração actual e/ou a geração dos nossos pais?
Há dias, tricotava conversas edificantes com alguns mais-velhos, assim pejorativamente chamados, quando estes chamam a atenção a um mais-novo. Conversávamos sobre união comunitária, boa convivência entre vizinhos e outros temas semelhantes. No entanto, a conversa acabou por enveredar para críticas a alguns vizinhos(as) que se profissionalizam em “hlevar” [fofocar], isto é, falar mal dos outros, assumindo uma postura de autossuficiência, como se não precisassem da ajuda de ninguém.
Nesse mesmo “hlevar”, após a morte súbita de um vizinho, a vizinhança acabou por desmascarar o seu modus vivendi. A comunidade apoiou a viúva em tudo, até à sepultura do finado, o que mereceu aplausos e agradecimentos por parte da família do falecido e dos demais. Sucede que, dias depois do enterro, um grupo de fofoqueiras desabafou: “Se não fôssemos nós, não haveria enterro naquela casa; não tinha nada, juro”.
Voltando às questões de partida, com os mais-velhos lamentávamos essas atitudes. Ainda assim, eles próprios se queixavam da ausência da geração actual, dos jovens, nas infelicidades da zona. Desabafavam dizendo: “Vocês estão perdidos”. No meio dessas lamentações e dores, ousei opinar: quem sofre as consequências dos vossos desentendimentos, enquanto mais-velhos, somos nós, vossos filhos, porque a melhor educação é pelo exemplo.
Afinal, não nos ensinam, não se sentam connosco para mostrar o caminho certo, para a convivência sã na sociedade.
Afinal, de quem é a culpa? Dos mais-velhos ou dos jovens?
Trata-se de uma pergunta para todos reflectirmos. Mais do que isso, é um convite para maquinarmos soluções, uma espécie de colete salva-vidas, capaz de salvar a sociedade do colapso existencial da sua identidade e cultura.
A meu ver, há solução a longo prazo, tal como o problema surge paulatinamente. Passa primeiro por assumirmos o problema, reconfigurarmos as relações sociais, fecharmos certas fronteiras virtuais e sermos intransigentes à importação de cultura em forma de apoio. É preciso sermos radicais em relação a certas condutas, mesmo quando são rotuladas como “princípios de direitos humanos”.
Porque de nada nos valerá sermos chamados de “maiores produtores de gás” se, em contrapartida, nos tornarmos os maiores degradadores da identidade e da cultura da nação.
Quando a morte deixa de doer — JÚLIO CUMBEJÚLIO CUMBE
Este artigo foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 16 de Dezembro de 2025.
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