Os prováveis efeitos dos “longos e hábeis braços” de Erdoğan
Emre Çınar, representante legal da Willow International School (Escola Willow) em Moçambique, poderá ter sido a mais recente presa dos “longos e hábeis braços” de Recep Tayyip Erdoğan, actual Presidente da Turquia.
Esta é a convicção generalizada da maioria dos membros da comunidade turca oposta ao regime de Erdoğan (que visitou Maputo em 2017), refugiada em Moçambique, depois do “aprisionamento e desaparecimento estranho” de Emre Çınar ocorrido na tarde desta terça-feira (30 de Dezembro de 2025) na cidade de Maputo.
A mesma linha de pensamento é corroborada Henriques Junior, advogado da família de Emre Çınar (foto de destaque), em declarações esta quarta-feira à media quando saía da Procuradoria da Cidade de Maputo, onde escalou, dentre vários pontos, em busca do seu demandante, que foi levado à força por homens à paisana, mas que alegaram serem agentes das Forças de Defesa e Segurança (FDS) de Moçambique.
Em declarações na condição de anonimato ao jornal Redactor um membro da comunidade turca disse não ter dúvidas de que o desaparecimento rocambolesco de Emre Çınar tenha motivações eminentemente políticas, “porque ele é um homem de paz e honesto e nunca cometeu nenhum crime, apenas está em Moçambique a buscar resguardo da sua integridade física, como muitos de nós”.
O episódio, que está a gerar enorme desconforto entre a comunidade turca hostil a Erdoğan refugiada em Moçambique, estando a merecer várias interpretações, incluindo a de “rapto político”, tendo suscitado, inclusivamente, a produção e disseminação de uma nota de clamor amplamente partilhada nas redes sociais, com o seguinte teor:
“Pedido Urgente de Apoio – Em Defesa da Justiça e dos Direitos Humanos em Moçambique
Hoje escrevemos com profunda tristeza, preocupação e sentido de responsabilidade. O Sr. Emre Çınar, representante legal da Willow International School (Escola Willow), foi detido hoje por volta das 15h00 por indivíduos não identificados que afirmaram ser da polícia, sem apresentarem qualquer mandado e sem exibirem identificação oficial. Além disso, não lhe foi permitido contactar um advogado.
Foi-nos dito que seria conduzido à Procuradoria da Baixa, mas após a família se deslocar ao local e a várias esquadras, não foi possível localizá-lo. Mais tarde, indicaram outros locais, porém novamente não havia qualquer registo ou confirmação oficial do seu paradeiro. Até ao momento, nenhuma autoridade assume responsabilidade ou conhecimento sobre onde se encontra.
Circulam também informações preocupantes de que esta detenção teria ocorrido a pedido da Embaixada da Turquia. Isto aumenta o nosso temor, pois existem antecedentes semelhantes no Quénia e noutros países africanos, com fortes indícios de operações financiadas e coordenadas por estruturas ligadas ao Estado turco, resultando em detenções ilegais, desaparecimentos forçados temporários e transferências extrajudiciais para a Turquia. Em caso de transferência, Emre Çınar corre risco real de perseguição política, tortura, castigos severos e condições desumanas, apesar de não ter cometido qualquer crime.
Reafirmamos com clareza: Emre Çınar vive e trabalha legalmente em Moçambique há cerca de 10 anos, plenamente integrado na sociedade local. A sua detenção, nos moldes relatados, representa uma grave violação dos direitos humanos fundamentais, incluindo:
• o direito à liberdade e segurança pessoal;
• o direito ao devido processo legal e acesso a advogado;
• e a proibição de detenções arbitrárias e desaparecimentos forçados, consagrada no direito nacional e internacional.
Fazemos um apelo urgente à sociedade moçambicana e internacional — mídia, juristas, líderes religiosos, organizações de direitos humanos, autoridades competentes e cidadãos conscientes — para que se unam na denúncia desta injustiça, exijam transparência imediata e ajudem a garantir:
1. a localização urgente de Emre Çınar;
2. a sua proteção e integridade física;
3. o acesso imediato a advogado e contacto com a família;
4. o cumprimento rigoroso da lei e das convenções internacionais.
A liberdade, a dignidade e os direitos humanos não podem ser negociados.
Que a nossa voz coletiva seja um chamado firme à justiça, à legalidade e à paz”.
Redactor
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