Reflexões de um Mini-empresário de Namialo: Entre Petróleo, Água e Filosofia de Buteco  

Em 1999, eu era o que se pode chamar de “CEO das Bombas de Petróleo”. Só que, no caso, as bombas eram galões e o escritório era o quintal de Namialo. Ser vendedor de petróleo naquela época me fazia sentir um verdadeiro microempreendedor. 

Antes disso, meu negócio era ainda mais líquido: vendia água na paragem de Namialo, onde o fluxo de pessoas era tão intenso quanto a fila de mendigos nas sextas feiras em Nampula. Era gente de Nampula, Namapa, Cabo Delgado, Nacala…

Enfim, parecia um grande encontro interprovincial, mas sem coffee break.  

Claro, nem tudo era lucro. Muitos pediam água e faziam o famoso “depois eu pago”. Mas adivinha? Esse “depois” nunca chegava. Ainda assim, lá estava eu, servindo água e alimentando sonhos de me tornar um grande empresário — ou pelo menos alguém com sapatos.  

Ah, sapatos… um luxo distante. Ia para a escola de pés no chão, literalmente, sem lanche e sem material escolar. Era uma vibe minimalista antes disso virar moda. Mas olha, não pense que eu era o rei da resiliência, não. Era só o resultado de uma matemática simples: pouco recurso, muita esperança e zero opção.  

Agora, deixa eu ser sincero: passar fome, vender água ou andar descalço não é garantia de que você vai virar líder, não. Se fosse assim, todo mundo que pega dois chapas fazendo ligações para trabalhar seria presidente do país. O que eu aprendi é que essas dificuldades, ao invés de te fazerem um sábio, podem só te transformar em alguém que vive a vida como se fosse uma DR eterna com o passado.  

E por falar em liderança, esses dias ouvi um jurista (sim, um profissional de Direito, com diploma e tudo) dizer que os bens públicos pertencem ao partido. Alguém avisa que isso aí não é aula de Direito Administrativo, mas de “Como Perder Amigos e Alienar Eleitores”? A formação acadêmica, pelo visto, não vem com um kit básico de ética incluído.  

Não quero ser o chato que acaba com a ilusão de que as dificuldades transformam automaticamente pessoas em líderes visionários. Elas não transformam, não. Às vezes, só deixam a pessoa com vontade de brigar com o mundo ou cobrar juros de quem nunca pagou por aquela água da paragem.  

Então, minha conclusão é simples: ser líder é mais do que superar as adversidades da vida. É transcender tudo isso com propósito, sabedoria e, se possível, um par de sapatos. Afinal, caminhar para o futuro descalço é pedir para pisar em espinhos.

JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA

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