Todos somos o jovem “Banana por Talento” — JÚNIOR RAFAEL
Preocupa-me, entristece-me, mas sobretudo revolta-me: quando um português sai de Lisboa de bicicleta rumo a Maputo, chovem aplausos. É resiliente, herói, sonhador, merecedor de apoio. A cada pedalada, o erguem como exemplo de coragem universal. E quando um jovem moçambicano — o Banana — decide atravessar o país de moto, sem patrocínio, sem estrutura robusta, apenas com o peito aberto e o sonho inflamado, é taxado de louco, inconsequente, até motivo de chacota.
O contraste dói porque revela a hipocrisia que se entranhou na nossa pele como herança de uma colonização mal resolvida: veneramos o de fora, enquanto desdenhamos os nossos.
Que país é este que mata os sonhos dos seus próprios filhos com sarcasmo? Que sociedade é essa que aplaude a aventura estrangeira e sabota a ousadia nacional? Somos cúmplices da asfixia das esperanças locais, e isso, sim, é um crime: assassinar sonhos é muito mais cruel do que roubar bens, porque empobrece o futuro.
O jovem Banana talvez não tenha a logística de uma expedição patrocinada, nem o brilho dos documentários europeus. Mas tem algo ainda maior: a força de quem decide desafiar o impossível mesmo quando todos riem. Ele carrega a chama da esperança que falta a tantos jovens que já desistiram de sonhar. Cada quilómetro que ele vence, é também uma denúncia contra o conformismo que paralisa. Cada posto onde pede gasolina, cada estrada poeirenta que atravessa, é um grito de resistência contra a ideia de que só o estrangeiro é capaz de grandes feitos.
Não é de aplausos virtuais que o Banana precisa. É de solidariedade concreta. Uma garrafa de água no meio do caminho. Um prato de comida servido com respeito. Uma cama decente para repousar as dores do corpo. Um valor para comprar gasolina e seguir adiante. São gestos simples, quase invisíveis, mas que constroem um país mais justo.
É preciso inverter a lógica colonial que nos habita: o estrangeiro não vale mais do que nós. A grandeza de Moçambique não se mede apenas no reconhecimento que damos aos de fora, mas na forma como cuidamos e incentivamos os nossos. O Banana não é apenas um jovem sobre duas rodas; ele é a metáfora de todos os que ousam sonhar sem garantias, apenas com a cara e a coragem.
Todos somos o Banana. Ou deveríamos ser. Porque cada vez que zombamos do sonho de um irmão, enfraquecemos a capacidade de sonhar coletivamente. E cada vez que estendemos a mão, fortalecemos o tecido invisível que faz uma nação existir.
O que nos falta não é coragem individual. O que nos falta é coragem coletiva para acreditar que Moçambique pode caminhar — ou pedalar, ou acelerar de moto — pelos seus próprios pés. Estou cansado de vocês mal-intencionados e sujeitos ocos!
JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA
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