Conselhos de quem já caiu
Aprendi cedo que não saber é mais honesto do que fingir saber. E que o silêncio, às vezes, é mais digno que discursos vazios. Nunca me senti à vontade com o papel do mestre, do exemplo, do modelo a ser seguido. Porque na vida, o que mais fiz foi tropeçar — e não por escolha, mas porque o caminho sempre foi cheio de buracos invisíveis e armadilhas bem maquiadas de certezas.
Escrevo, sim, mas escrevo como quem conversa à beira da estrada, com as roupas sujas de poeira e a alma calejada de tentativas. Vivo num mundo onde a aparência tem mais prestígio que a essência, onde os likes pesam mais que a escuta, e onde a verdade virou um artigo raro, quase fora de moda. Num tempo em que tudo é rápido, tudo é imagem, tudo é consumo — até as pessoas, os sentimentos, os ideais.
A solidão, para mim, não é falta de companhia, mas o espaço onde aprendi a pensar com mais clareza. Ela me ensinou que nem toda multidão é sinônimo de afecto, e que, muitas vezes, é no recolhimento que encontramos a coragem de continuar. Não, não me fiz sábio — me fiz atento. E essa atenção ao mundo, ao outro, ao que se repete e ao que se quebra, é o que me dá vontade de escrever.
Quando falo de cuidado, não é porque tenho todas as respostas. É porque já ignorei os sinais. Quando falo de escuta, não é porque sempre soube ouvir. É porque perdi gente por não saber calar na hora certa. Quando falo de não tombar, é porque já me vi no chão e sei o custo de levantar.
Se, em algum ponto, minhas palavras soarem como conselho, que fique claro: não são manuais de vida. São mapas rabiscados por alguém que ainda se perde — mas que aprendeu a não ter vergonha de perguntar o caminho.
E se servir a alguém, que seja como um aviso carinhoso de quem já passou por ali: Olha, cuidado, tem um buraco logo depois da curva.
JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA
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