Até Quando, Moçambique?

Até Quando, Moçambique?

Cinquenta anos. Meio século. Um marco que deveria ser celebrado com dignidade, memória e renovação. Mas o que vemos é um país ferido, uma terra exausta de tanto gritar para ouvidos surdos, uma nação onde as feridas da independência já se transformaram em úlceras profundas — abertas, purulentas, ignoradas. As chagas que o povo carrega não são mais apenas cicatrizes do colonialismo: são sinais de uma podridão interna, alimentada pela corrupção, pela ganância e pelo desprezo de muitos daqueles que juraram servir, mas aprenderam a reinar.

A 25 de Junho de 1975, ergueu-se a bandeira com promessas de liberdade. O hino ecoou com esperança. A luta armada findava e o sonho começava. Mas com o tempo, o sonho se desfez. Hoje, Moçambique chora. Chora pelas crianças que crescem sem escola, sem pão, sem futuro. Chora pelas mães que enterram seus filhos, vítimas da violência, da guerra esquecida no Norte, da negligência sistêmica. Chora pelos jovens que cruzam fronteiras em busca de dignidade, deixando para trás a pátria que os expulsou pelo silêncio cúmplice e pela ausência de políticas que promovam vida com dignidade.

Os que governam parecem habitar outro país — um país onde não há filas nos hospitais, nem buracos nas estradas, nem cortes de energia. Lá, as refeições são fartas, as viagens são constantes, os discursos são ensaiados. Aqui, do lado de cá, está o povo. Sem voz, sem vez. Falamos, protestamos, resistimos, escrevemos, choramos… e nos deixaram chorar. Parece até que o cerrume no ouvido dos dirigentes se cristalizou. Só um otorrinolaringologista da ética — se é que existe — poderia remover tanto descaso acumulado.

Moçambique é uma terra rica: solo fértil, rios caudalosos, reservas minerais, um povo resiliente. Mas é pobre porque seus recursos foram saqueados pelos próprios filhos da terra. Os mesmos que prometiam libertação, hoje promovem dominação. A independência foi-nos dada — mas de quem nos libertamos, afinal? Do colono europeu? Sim. Mas agora vivemos sob o domínio do colono interno: o dirigente que manipula, controla, silencia, reprime.

Esta crônica é um misto de reconhecimento e lamento. Reconhecimento por todos que tombaram de verdade, que empunharam armas com fé no povo e não com sede de poder. Lamento por quem traiu esse legado, vendendo a pátria em nome de alianças obscuras, negócios escusos e vaidades incontroláveis.

Chegamos aos cinquenta. Mas não há maturidade na democracia, nem solidez na justiça, nem transparência na gestão pública. Chegamos, sim, à beira do colapso ético. E a pergunta que arde, como as feridas que nunca cicatrizam, continua ecoando:

Até quando, Moçambique?

Até quando vamos permitir que nos façam acreditar que miséria é destino? Até quando vamos tolerar que a independência sirva apenas como peça decorativa nos discursos oficiais? Até quando vamos sangrar em silêncio, enquanto os palácios se enchem de ouro?

A esperança existe, mas ela cansa. E está cansada.

Que este 25 de junho seja mais do que memória. Que seja grito. Que seja levante. Que seja ponto de virada. Porque já choramos demais. E se não nos escutam chorando, talvez nos escutem levantando.

JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA

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