O crime de ser jovem e pensar
Aqui não te deixam trabalhar. Nem querem que trabalhes. Aqui, pensar é um risco, agir é um atentado e demonstrar coragem é um pedido formal de punição. Desta vez, a vítima foi Lundo, um jovem que, por acidente histórico ou falha de algoritmo partidário, conseguiu sentar na cadeira de Administrador de Manica. Sentou-se com brilho nos olhos, pastas na mão e ideias na cabeça — três coisas perigosíssimas no manual de sobrevivência da política local.
Durou 45 dias. Mais do que uma maçã na feira, menos que uma promessa eleitoral.
Lundo, numa daquelas decisões que só quem ainda não entendeu bem o jogo tem coragem de tomar, resolveu visitar as mineradoras da província. Foi ver de perto como se cava lucro e se enterra o povo. Achou rios escuros, terras queimadas e comunidades intoxicadas. Coragem de principiante — suspendeu algumas empresas. Disse que o ambiente estava acima do negócio. Coitado. Dizer isso por aqui é assinar a própria sentença de exílio institucional.
O jovem achou que o poder servia para servir. Ledo engano. Em terra de caciques, quem ousa contrariar o garimpo vira pedra no caminho — e pedra, aqui, se remove. Em menos de dois meses, Lundo foi esvaziado. Um eufemismo elegante para dizer que tiraram-lhe o tapete, os quadros, os seguranças, o telefone e a ilusão.
Restou-lhe a OJM. Sim, a famosa Organização da Juventude — esse banco de suplentes onde vão parar os que ousam brilhar antes da hora ou contrariar quem já tem brilho vitalício. Lá, entre reuniões sobre valores revolucionários e seminários com slogans reciclados, Lundo vai aprender que o idealismo juvenil é um luxo que não cabe no organograma.
O recado está dado, mais uma vez, para quem ainda insiste em querer fazer diferente: aqui não se premia a iniciativa. Suspender mineradoras? Só se for com fita de inauguração. Combater a poluição? Só se for a das redes sociais. Defender o meio ambiente? Só se for o ar condicionado dos gabinetes.
E assim seguimos. A juventude engajada vai sendo moída nos bastidores do cinismo institucional. A cada 45 dias, nasce um Lundo e morre um pouco mais a esperança. Mas ninguém fala. Afinal, “o camarada vai crescer com a experiência” — dizem, enquanto afundam a experiência dele num pântano de mediocridade.
Cuidado, jovem. Aqui, pensar é perigoso. Agir, ainda mais. E tentar mudar as regras do jogo… é a jogada mais ingênua de todas.
JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA
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