A festa que o povo não foi
Era uma vez um estádio. Não era qualquer estádio. Era o imponente Estádio Nacional da Machava, palco de glórias futebolísticas, promessas políticas e, vez ou outra, espaço de coreografias patrióticas ensaiadas como se a independência fosse uma peça teatral repetida desde 1975. Desta vez, o cenário era especial: 50 anos de independência. Meio século de luta, suor, discursos longos, bandeiras ao vento… e um silêncio constrangedor ecoando nas arquibancadas.
O governo, liderado pelo recém-empossado Daniel Chapo, preparou-se como quem organiza uma boda real. Camisas da Frelimo foram passadas a ferro, os helicópteros testados, a transmissão televisiva alinhada, os artistas convidados (alguns ressuscitados só para a ocasião), os discursos revisados com reticências dramáticas. Faltava apenas o detalhe mínimo: o povo.
Sim, o povo – essa entidade mística que aparece nas campanhas eleitorais, nas promessas de desenvolvimento e nos slogans cheios de esperança – não compareceu. Nem com transporte subsidiado, nem com pão com badjia, nem com camisetas e capulanas grátis. Nada. Nem mesmo os obrigatoriamente convocados apareceram. Até os alunos das escolas, especialistas em clamar “viva!” por 200 meticais e uma Fanta quente, deram bolo.
Foi aí que se instalou o pânico institucional:
— “Companheiro ministro, e o povo?”
— “Está a manifestar-se… silenciosamente.”
Alguns tentaram justificar: “foi o frio”, “foi a chuva”, “foi a pandemia”, “foi o eclipse lunar”, mas a verdade é que nem um quarto do estádio foi ocupado. Até os drones da imprensa estatal ficaram entediados, filmando os mesmos vinte militantes dançando com bandeirinhas, enquanto os repórteres diziam: “Milhares compareceram…” com cara de quem queria mesmo era estar na cama.
E aí, surge a pergunta que não quer calar (nem mesmo com censura):
O que se passa então?
Será que o governo de Daniel Chapo está sendo rejeitado? Será que o povo finalmente percebeu que independência sem pão, saúde, educação e dignidade é apenas feriado e retórica? Será que estamos diante de uma consciência social activa… ou apenas de uma passividade estratégica? A ausência foi a nova forma de protesto? A revolução agora veste jeans, dorme até tarde e não pega chapa para a Machava?
Talvez sim, talvez não. Talvez o povo esteja cansado de aplaudir sem receber aplausos de volta. Talvez a independência precise de revisão de contrato: o povo assinou em 1975 esperando melhorias e só recebeu promessas em prestações.
E agora, no cinquentenário, decidiu responder com uma greve de presença.
Foi o maior acto de subversão silenciosa do século: o povo não foi.
E o governo, coitado, ficou com os discursos no bolso, a tarima vazia e o bolo da festa sem quem partilhar. E, como sempre, culpou o povo por não saber celebrar.
Fim da linha frelimista. Viva os 50 anos de independência. Mas viva de verdade, com povo presente – e não só no discurso.
JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA
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