Silêncio para uns, fogo de artifício para outros

Na minha zona de nascença, quando alguém morria, o silêncio se tornava lei. As árvores ficavam vazias, os rádios calavam, os batuques emudeciam e até as crianças, irrequietas por natureza, aprendiam a respeitar o luto. A morte não era espetáculo; era reverência. Havia um código não escrito que atravessava gerações, onde o pesar colectivo sobrepunha-se às rotinas do dia. Em algumas ocasiões, nem a escola se impunha à dor. O morto era lembrado, o silêncio era sagrado, e o respeito, uma liturgia comunitária.

Cinco décadas depois da independência, celebramos com fogo – fogo literal, pirotécnico, festivo e militarizado. Os céus são pintados de luzes enquanto os rostos de muitos permanecem sombrios. A polícia desfila, as autoridades discursam, os camarotes se enchem, e o dinheiro público escorre em desfiles de vaidade. Há discursos que gritam “liberdade”, “soberania”, “desenvolvimento”. Mas gritam para quem?

Porque, ao Norte, em Cabo Delgado, o sangue ainda escorre, a dor ainda grita – mas sem microfone. Ali, os corpos não têm direito ao silêncio cerimonial nem ao respeito que se dava nas nossas zonas de infância. São degolados, esquartejados, obrigados a deixar suas terras e cruzar fronteiras invisíveis com o peso de traumas indescritíveis. Seus gritos não são ouvidos nas comemorações. Eles não têm parada militar. Não têm fogo de artifício. Têm medo, fuga, e o silêncio forçado de quem perdeu tudo.

O paradoxo salta aos olhos: onde se esperava dignidade, há ostentação. Onde se devia lembrar os que ainda morrem por esta terra, celebram-se os que se agarram ao poder em nome dela. A independência deveria ser um altar de memória e justiça – e não um palco para ignorar os vivos em luto e os mortos esquecidos.

Se na minha infância bastava a morte de um para silenciar uma aldeia, como podemos hoje, com tantos mortos e refugiados, fazer tanto barulho?

Que independência é essa que festeja com fogos enquanto parte do povo ainda vive no escuro do medo?

Talvez seja hora de parar o batuque, desligar o rádio e, mais uma vez, respeitar o silêncio. Não por tradição. Mas por humanidade.

JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA

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