O Presidente, a plateia vazia e o povo na batida errada

Moçambique celebrou recentemente 50 anos de independência. Uma data redonda, dourada, digna de discursos inspiradores, palanques vistosos e, claro, do Chefe do Estado com aquela pose de “pai da nação”. Tudo pronto. O palanque montado. Os camaradas alinhados. O hino nacional ensaiado em três tons.

Mas faltou uma coisa.

O povo.

Sim, o povo. Esse mesmo povo que dizem ser “soberano”, “participativo” e “maduro”. Acontece que, no momento em que o Presidente discursava, o povo já estava em peso… no Estádio da Machava, a gritar pelos Titãs do Kuduro, a pular com Luna Mena e a pedir bis ao Mr. Bow. E não era meia dúzia de fãs, não. Era gente que parecia ter sido convocada por edital nacional — só que para dançar, não para ouvir política.

Confundimos independência com festival.

Enquanto o Chefe do Estado lançava frases solenes sobre o “povo moçambicano unido, resiliente e comprometido com o progresso”, a plateia real estava batendo palmas para o Trio Fam, tirando selfies e postando no TikTok com a hashtag #Machava50Anos. Uma ironia deliciosa: celebramos a liberdade conquistada fugindo da própria cerimônia oficial da liberdade.

Afinal, vamos ser sinceros: hoje em dia, o discurso político precisa de um beat. Talvez se o Presidente tivesse entrado com um “yo yo camaradas!”, seguido de um auto-tune, ou aupeleni toda gente, a história fosse outra.

E o Conselho Constitucional?

Ah, o Conselho… Esse batalhão jurídico que se virou do avesso para nos entregar um Presidente novinho em folha, embalado com selo de legalidade, apesar dos tropeços do processo eleitoral. Julgaram recursos, interpretaram números, viraram noites com pareceres mais longos que novela mexicana. E tudo isso para quê?

Para o povo largar o Presidente no comício e correr para o show.

É como preparar uma boda tradicional completa, com cabrito e tudo, e ver os convidados irem comer hambúrguer de rua porque lá tem música ao vivo. Foi ele, chefe do estado que disse.

Mas será ingratidão ou apenas lucidez?

Talvez o povo esteja apenas cansado do discurso que promete, promete… e nunca vira refrão. Porque música, mesmo sendo efêmera, ao menos entrega emoção na hora. Já a política… bem, essa geralmente entrega “esperança” com data indefinida.

Não se trata de desrespeito — trata-se de prioridade emocional. Num país onde o pão custa mais do que o salário de um dia, onde a juventude carrega diplomas e vive no desemprego crônico, é natural que se escolha dançar uma marrabenta ao invés de ouvir mais uma vez que “o futuro será melhor”.

No fim, talvez estejamos só pedindo para que nossos líderes deixem de nos falar como se ainda estivéssemos em 1975 — e comecem a cantar no mesmo ritmo que estamos vivendo em 2025.

Porque, se o povo está na festa e o Presidente no silêncio, talvez a questão não seja onde está o povo… mas onde está a política.

JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA

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