Naldo Bila desafia os medos e frustrações na rua

Os pontapés da vida precipitaram Naldo Bila, nascido na região do Posto Administrativo de Chissano, distrito de Limpopo, na província de Gaza, para Maputo, aproximadamente 170 quilómetros mais a Sul, onde rapidamente teve de se adaptar à “loucura” que a grande metrópole de Moçambique exige.

Prolongadas desavenças passionais entre os seus progenitores determinaram a decisão do menino então com 14 anos de idade, com deficiência visual e com uma quase nula escolaridade, a mergulhar na grande “selva” que é a capital moçambicana. Estávamos em 2014.

Naldo Bila diz que sofre de cataratas, alegadamente cultivada por alguma negligência dos seus pais e, hoje, mesmo ciente da enfermidade e de conviver as consequências da mesma, diz que por enquanto não tenciona tentar uma cirurgia para corrigir esse drama.

“Aqui em Moçambique o desfecho dessa provável operação é incerto e não estou para correr riscos”, argumenta, céptico com o sistema nacional de saúde, em conversa com a Reportagem do jornal Redactor, no seu “local de trabalho”, ao relento em plena Praça dos Combatentes, vulgarmente conhecida por “Xikhelene” um dos maiores mercados a céu aberto na cidade de Maputo.

Afirma estar a reunir condições para ver se “um dia” consiga fazer essa operação na vizinha República da África do Sul, “onde as chances de uma cirurgia desta natureza dar errado são quase nulas”.

“Ademais, pelo levantamento que fiz aqui em Moçambique não iria gastar abaixo de sessenta mil meticais para realizar essa operação, mas já apurei que na África do Sul por relativamente muito pouco posso ser operado com menos riscos”, frisa o jovem empreendedor.

Naldo Bila é um jovem que se desafia se si próprio, permanentemente, razão ela qual jura que vai atingir esse objectivo, “da mesma sorte que mesmo com a minha deficiência e com baixo nível de escolaridade vivo de renda própria e não passo a vida a mendigar”.

Num país onde a educação e o emprego são alguns dos direitos fundamentais consagrados na Constituição da República, muitos “Naldos” saem das suas zonas de origem rumo a capital do país, na busca de uma vida melhor acabam abandonando os estudos para se dedicarem ao trabalho infantil, sobre o olhar negligente das autoridades governamentais.

Mesmo os que singram na academia, depois da formação não raras vezes deambulam com os seus canudos em busca de emprego formal que é quase uma miragem, acabando por cair na frustração ou, na melhor das sinas, engrenando em actividades que pouco ou na têm a vier com as suas áreas de formação na academia.

Mas este Naldo que veio de Chissano aparentemente se dá bem na sua luta pela sobrevivência, não obstante a deficiência visual e o baixo nível de escolaridade (sexta-classe).

“Apesar de não ter estudado, não passo necessidades básicas e olho o futuro com muita esperança, contando simplesmente com as minhas próprias forças. Não estou aqui para falar que o Governo não faz isto ou aquilo para mim. Estou me virando, e com algum êxito”, vangloria-se o nosso interlocutor, com um rasgado sorriso.

Muito sonhador, diz que já olha o negócio de venda de calçado usado em “Xikhelene” como “pequeno” e sonha em se entregar no negócio de materiais de construção, com para portas, como principal objecto de comercialização, tendo as cidades de Maputo, onde vive, e a de Xai Xai, capital provincial da sua terra natal, como principais mercados.

Conta que a sua primeira praça de negócios foi nas imediações do mercado grossista de Zimpeto. “Me mudei de lá porque a dada altura a perseguição movida pelos agentes da Polícia Municipal era terrível”.

“Em Dezembro de 2023 perdi mais de 25 pares de calçado que vendia no Zimpeto, na sequência de uma surpreendente investida da Polícia Municipal. Frustrado, recuei, fui recuperar moral, energia e recursos e retomei a minha actividade, já aqui no Xikhelene”, desabafa Naldo Bila.

Aparentemente, os dias de Bila no “Xikhelene” podem ser interrompidos num futuro próximo. É que a Polícia Municipal começou, esta segunda-feira (07 de Julho de 2025), uma “campanha de sensibilização” para todos os que vendem nas ruas se retirem, um prelúdio mais que claro de que actuação coerciva para libertar as ruas e passeios dos vendedores informais na capital está na forja.

EUGÉNIO MUNDLOVO, texto e fotos

Este artigo foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 09 de Julho de 2025.

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