Os cães do sistema — JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA
Fanon, repressão policial e a alienação dos corpos africanos
Na contemporaneidade africana, os episódios de repressão violenta contra manifestações populares tornaram-se cenas frequentes em países como Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. Policiais mal pagos, mal alimentados, sem moradia digna ou reconhecimento social, apontam suas armas contra os próprios irmãos e irmãs — contra o povo que, assim como eles, carrega as marcas do abandono do Estado.
O que os move? Por que defendem os opressores? A resposta encontra ecos profundos na obra de Frantz Fanon, especialmente no livro Por uma Revolução Africana (1964), onde ele afirma: “O policial e o soldado são os cães de guarda do colonialismo”. A frase pode parecer dura, mas é também brutalmente verdadeira — sobretudo quando se analisa a realidade estrutural que conforma a função policial nas ex-colônias africanas.
Fanon, psiquiatra e revolucionário martinicano, desmascarou em suas obras a função do sistema colonial de dividir e manipular os corpos oprimidos para que se voltassem uns contra os outros. A polícia — ontem colonial, hoje nacional — permanece ocupando o papel de mediadora da violência do Estado contra o povo. Ainda que, formalmente, os países tenham conquistado a independência política, o comportamento das forças de segurança mostra que a descolonização do poder, da economia e da mente ainda não aconteceu.
Quando policiais reprimem manifestações por melhores condições de vida, não estão apenas executando ordens: estão reforçando a estrutura de dominação que os explora duplamente — como trabalhadores precarizados e como instrumentos de repressão. Fanon nos alerta que o sistema precisa produzir sujeitos alienados para funcionar. E o policial é talvez o exemplo mais trágico dessa alienação: ele acredita que está exercendo autoridade, quando na verdade está sendo usado como escudo do poder que o mantém na miséria.

Esses agentes da ordem não têm salário digno, não têm moradia, muitas vezes sequer têm fardas em bom estado. São forjados no medo, treinados na obediência cega e manipulados por discursos patrióticos ou moralistas que os afastam da classe social a que pertencem. Nas ruas, reprimem professores, estudantes, mães, trabalhadores informais — todos vítimas do mesmo abandono. Mas o regime os ensina a odiar o povo, a enxergar no manifestante um inimigo, quando o verdadeiro inimigo está nos palácios, nos parlamentos, nas contas bancárias milionárias de uma elite predadora.
Em Por uma Revolução Africana, Fanon insiste na urgência de uma verdadeira libertação dos países africanos — não apenas das estruturas coloniais externas, mas sobretudo das internas: o racismo institucional, o capitalismo dependente, o autoritarismo político e a alienação das forças sociais. A figura do policial africano que atira contra o povo é o símbolo dessa colonização persistente: é o colonizado que defende o colono, mesmo que este tenha trocado o rosto branco por um rosto negro.
Os regimes africanos autoritários aprenderam com os colonizadores que o medo é uma ferramenta eficaz de controle. E transformaram os aparatos de segurança em ferramentas de coerção, cultivando uma cultura de impunidade, brutalidade e silêncio. O trágico é que, muitas vezes, os próprios policiais são alvos da mesma violência estatal — são descartáveis quando deixam de ser úteis, são punidos quando mostram empatia, são mortos ou silenciados quando questionam o sistema.
Portanto, este nosso pensamento não se volta contra os indivíduos que vestem a farda, mas contra a lógica de dominação que os escraviza e os aliena. Fanon nos convida a romper com essa lógica, a pensar numa revolução profunda que transforme não apenas as instituições, mas a consciência dos sujeitos. O policial africano precisa se reconhecer como parte do povo e não como inimigo dele. Precisa saber que seu verdadeiro poder não está na arma que carrega, mas na capacidade de dizer “não” ao sistema que o destrói.
O futuro de Guiné-Bissau, Angola, Moçambique e de tantos outros países africanos depende de uma reconfiguração profunda das relações entre o Estado e seu povo. A desmilitarização da política, a dignificação das forças de segurança, a formação cidadã crítica e a democratização real são caminhos possíveis. Enquanto isso não acontece, ecoa o grito de Fanon: “Cada espectador é um covarde ou um traidor.” Não podemos continuar espectadores da barbárie.
JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA
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