Gostaríamos de ser respeitados — JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA

Gostaríamos de ser respeitados. Não por caridade. Não por piedade. Mas por justiça. Por dignidade. Por tudo o que já suportamos calados enquanto nos tomavam a terra, o futuro e até o nome.

Respeitados porque o país é nosso. Porque a terra foi lavrada com os nossos braços calejados, regada com o suor das nossas mães e o sangue dos nossos avós. Porque os sonhos que aqui brotam, apesar de esmagados, insistem em florescer no meio do entulho, dos escombros deixados por políticas que nunca nos ouviram.

Sim, o país é nosso. Mas de longe parece que alugamos a pátria. Como se fôssemos inquilinos indesejados na nossa própria casa. A cada esquina há uma cerca invisível, uma câmera apontada, uma desconfiança no olhar — como se fôssemos suspeitos da vida que tentamos levar. Como se respirar fosse um abuso. Como se viver com dignidade fosse um crime de luxo.

Nos empurram para as margens. Para os cantos empoeirados do sistema. Nos forjam ao suicídio — quando a desesperança vira rotina e a depressão é tratada com silêncio. À mendicidade — quando o trabalho não basta para comprar o pão, e nos obrigam a estender a mão por esmolas travestidas de políticas públicas. E, sim, até à prostituição — não apenas de corpos, mas de valores, de sonhos, de futuros. Quando vender a própria integridade vira uma condição para sobreviver.

Vivemos de favores. Favores políticos, favores de apadrinhamento, favores que cobram caro: a alma. Mas ninguém quer esmola, queremos direito. Queremos existir sem pedir licença. Queremos construir sem ter que justificar nossa presença. Queremos sonhar sem sermos tratados como delírio.

Estamos cansados. E o cansaço tem nome: exclusão, desigualdade, manipulação. Um país que nos nega o básico, mas exige silêncio. Um país que nos ensina a baixar a cabeça quando tudo em nós grita por liberdade.

Por isso escrevemos. Porque a palavra ainda é um lugar de resistência. Porque enquanto pudermos dizer “o país é nosso”, há esperança de que um dia ele, de fato, volte a ser.

JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA

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