Penina Guambe: a menina que abreviou o crescimento

Quis a sina que Penina Benjamin Guambe perdesse cedo os seus progenitores: primeiro se foi o pai desta para a outra, quando ela tinha apenas sete anos de idade e quatro anos volvidos ela e outros dois irmãos mais novos ficavam cem por cento órfãos. A mãe também partiu para a eternidade. Estávamos em 2016.

Felizmente os tios de Penina conservam ainda a velha, mas boa tradição africana, segundo a qual “filho do meu irmão é meu filho” e não permitiram que Penina e seus irmãos ficassem ao Deus proverá, na Matola C, onde residiam.

Em casa dos tios, os três órfãos encontraram aconchego e cedo se adaptaram às vivências num ambiente desconhecido: Boane, onde os irmãos do falecido pai dos dois meninos vivem.

Desiluda-se quem julgar que o tio da Penina, desempregado, mas ladrilhador de profissão, é um homem financeiramente desafogado. Bem pelo contrário. E isso não escapou à atenção excepcionalmente aprimorada da pequena órfã.

Os apertos financeiros enfrentados pelo tio da Penina, mesmo com tentativas incansáveis daquele em disfarçá-los, aguçaram ainda mais a proactividade desta, que cedo buscou alternativas honestas para gerar fundos, numa fase inicial para resolver pequenas necessidades de foro estudantil, num esforço para aliviar os apertos financeiros do seu tio.

Foi nesse contexto que junto de vizinhas e amigas Penina rapidamente aprendeu a fazer tranças. Depois fez desses conhecimentos fonte de renda. Passou a trançar outras meninas da zona, ganhando, com isso, aquilo que apelida de “alguns trocados”.

Porque os “trocados” da Penina evoluíram para “valores substanciais”, resultado das tranças às vizinhas, amigas e mais tarde algumas colegas de escola, a nossa entrevistada achou por bem passar a declarar e a confiar os seus rendimentos ao tio.

Não tardou que em poucos meses passasse a ter capacidade para ajudar a “bancar” parte das despesas caseiras, aliviando os encargos do tio que em alguns momentos da nossa conversa chama de “pai”, já que com os recursos por ela acumulados já conseguia comprar a grosso alguns cabelos artificiais, calçado usado e outros bens e utensílios que vendia para amigos e colegas interessados.

A veia “empresarial” de forma alguma beliscou a componente académica da menina Penina, dotada de um nato talento, paixão e queda para o desenho, facto que impressionou até alguns docentes desta cadeira na escola.

É assim que Penina alarga o seu “nicho de actividades empresariais” para o desenho, não como obrigação curricular, mas como fonte de rendimento: inclusivamente passou a fazer alguns trabalhos desta disciplina para os colegas menos empenhados, em troca de material escolar ou valores monetários. Não raras vezes alguns dos seus docentes encomendaram os seus trabalhos…

Sem andar em bicos de pé ou perder respeito ao tio, a este Penina pediu autorização para se inscrever numa instituição especializada na lapidação de talentos em matérias de desenho, ao que o tio anuiu.

Hoje, aos vinte anos de idade, Penina é dona do seu nariz e faz parte do quadro de pessoal de uma gráfica na cidade de Maputo, como designer gráfica (https://youtu.be/jSgXquFNjqs).

Ao jornal Redactor revela a sua ambição profissional: “gostaria de abrir a minha própria gráfica”, diz, com um sorriso rasgado, enquanto manipula habilmente o “mouse” do seu computador, cuja tela exibe, orgulhosamente, uma das obras em finalização.

“Tenho fé que serei uma empresária, e não uma simples empresária, mas empresária de sucesso nesta área porque adoro o que faço”, assume, com um olhar fulminante.

Penina dedica o seu sucesso ao casal de tios que dela e aos seus dois irmãos cuidam. “Nos sentimos bem acarinhados. Estou lhes eternamente gratos. O meu desejo é vencer na vida e um dia puder retribuir, na medida do possível, o esforço dos meus tios, como forma de honrar a memória dos meus pais. Tenho fé que isso vai acontecer a breve trecho”, vinca, com um optimismo espantoso.

A gratidão da Penina não se circunscreve ao casal de seus tios, revela mais um sonho: “criar um orfanato e ajudar as crianças desfavorecidas que andam de casa em casa pedindo o que comer, passando fome e humilhações nesse mundo cruel”.

EUGÉNIO MULHOVO

Este artigo foi publicado em primeira mão na edição em PDF do jornal Redactor do dia 25 de Julho de 2025.

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