A morte de Tano Bari e o abismo da impunidade na Guiné-Bissau — JÚNIOR RAFAEL
A confirmação da morte de Mamadu Tano Bari, segurança presidencial guineense, cujo corpo foi encontrado no Rio Mansoa, não é apenas um drama familiar — é um grito abafado por entre os corredores sombrios do poder em Bissau. A maneira como se opera o silêncio em torno da sua morte exige mais do que uma nota de pesar: exige lucidez crítica, coragem coletiva e vontade política de rasgar o véu da impunidade que se tornou a norma no país.
Tano Bari, um homem inserido nas estruturas de protecção máxima do Estado, havia alertado à sua família que estava a ser perseguido e ameaçado por colegas do próprio serviço. Quando um agente do círculo presidencial denuncia perseguição interna, e acaba morto dias depois, o que isso revela senão um sistema corrompido por dentro, que se alimenta da intimidação, da obediência cega e do medo? O silêncio cúmplice que paira sobre este caso fala alto sobre a fragilidade institucional da Guiné-Bissau — onde os corpos aparecem, mas a verdade permanece soterrada.
A detenção de seu irmão, Tcherninho Bari, também não pode ser lida como uma coincidência isolada. Trata-se de um contexto mais amplo em que dissidências, reais ou presumidas, são neutralizadas não pelo diálogo ou pelo devido processo legal, mas pelo uso do aparato de segurança como instrumento de repressão. O Estádio Maior tornou-se símbolo distorcido daquilo que deveria ser exceção: a prisão sem acusação formal clara, o prolongamento da detenção sem julgamento e a normalização da arbitrariedade.
Há aqui uma dimensão simbólica poderosa: um segurança do Presidente é morto em circunstâncias suspeitas, e o que se espera da Presidência da República é mais do que um comunicado burocrático — espera-se indignação, compromisso com a verdade, e uma resposta institucional firme. O silêncio ou a hesitação em responder contribui para a erosão da legitimidade do próprio Estado.
Não se pode falar em segurança nacional quando os próprios agentes dessa segurança vivem sob ameaças. Não se pode falar em Estado de Direito quando a morte de um funcionário estatal próximo ao centro do poder não provoca uma resposta proporcional. E não se pode falar em democracia enquanto o medo for o principal regulador das relações entre os cidadãos e as instituições.
A Guiné-Bissau tem a oportunidade, com este caso, de romper o ciclo da omissão. A exigência da família por uma investigação transparente e imparcial é um apelo que precisa ecoar além da dor pessoal: é um teste à maturidade do sistema judicial e à independência das instituições. É um clamor que se junta a tantos outros já lançados ao vazio.
A história recente do país está repleta de mortes “inexplicáveis”, desaparecimentos políticos e episódios de violência sem esclarecimento. Tano Bari, infelizmente, pode vir a ser mais um nome nesta lista. Mas não deveria. Porque cada vez que o Estado falha em proteger os seus próprios agentes, envia uma mensagem clara ao resto da população: ninguém está seguro.
A memória de Tano Bari não pode ser deixada à deriva como seu corpo no rio. Que ela sirva de espelho para todos aqueles que ainda acreditam que justiça não é um luxo — é uma urgência moral e política. Enquanto o silêncio imperar, a democracia guineense continuará sendo apenas uma miragem, encenada para manter uma aparência institucional sobre um abismo de injustiça.
JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA
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