ANAMOLA de registo, ANAMALALA de casa — JÚNIOR RAFAEL
Em Moçambique, ter dois nomes é tão comum quanto ter duas receitas para cozinhar xima: uma para os dias de festa e outra para quando o milho anda caro. Há o nome de baptismo — aquele que vai para o BI, para a escola, para o boletim de notas e para as multas de trânsito — e há o nome “de casa”, que carrega mais afecto, mais apelido e, muitas vezes, mais sílabas do que a paciência do dono.
Foi exactamente isso que aconteceu com o recém-aprovado partido político de Venâncio Mondlane. No registo oficial, lá na pasta cinza do cartório, ficou ANAMOLA. Nome curto, sério, de quem usa gravata e fala baixo. Mas, na boca do povo, o partido já ganhou sua versão caseira: ANAMALALA — comprido, alegre, quase um batuque de sílabas que parece pedir que se dance antes mesmo de entender o significado.
Quando a notícia da aprovação chegou, Moçambique entrou num campeonato nacional de reações. Uns, mais formais, disseram:
— O importante é que está registrado.
Outros, mais íntimos, celebraram como quem encontra amigo de infância no mercado:
— Ah, mas aqui em casa vai ser sempre o nosso Anamalala!
Houve ainda os que ficaram sem ar, como se tivessem acabado de correr para apanhar o último chapa das 18h. E, claro, teve a turma dos incrédulos — aqueles que olham para o papel e pensam: “Será que isto é sério ou é mais uma novela política?
Mas a verdade é que Moçambique sempre soube viver bem entre dois nomes. Temos o Joaquim que no bairro é Quim Tchova-Tchova, a Dona Maria que no BI é Margarida Augusta dos Santos, e o Carlos que só a mãe chama de Carlinhos (e só quando ele está metido em sarilhos).
O que será daqui para frente?
Talvez nas assembleias falem em ANAMOLA, com voz grave e protocolos. Mas no mercado, no taxi e na fila do pão, o povo vai votar, gritar e cantar por ANAMALALA. E se um dia perguntarem qual dos dois é o verdadeiro, a resposta será simples e moçambicana: “Os dois, meu amigo. Um é para a foto oficial, o outro é para a vida.”
Porque no fundo, em Moçambique, a gente sabe: nome de registro é burocracia; nome de casa é identidade. E se ANAMOLA quer dizer “vai pegar” em Guitnga,… ANAMALALA é o jeito moçambicano de dizer: “já pegou e não larga mais.”
JÚNIOR RAFAEL OPUHA KHONLEKELA
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