Em nome de quem? A febre do “representar Moçambique” e seus silêncios
O jornalismo de Moçambique pós-1975 tem passado por diversas metamorfoses, marcado por influências dos modelos hegemónicos: europeus e norte-americanos. Nos últimos anos, nota-se também a presença de elementos das práticas jornalísticas brasileiras. Ainda assim, considero que o jornalismo moçambicano mantém características próprias, moldadas pelo seu contexto geográfico e, sobretudo, sociocultural — factores determinantes para afirmar que segue caminhos peculiares e singulares.
Como jornalista e pesquisador na área das Ciências da Comunicação, preocupo-me em promover reflexões sobre este campo. Este texto é voltado ao público que produz conteúdo jornalístico de qualquer género — profissionais que, por meio de suas palavras, constroem enquadramentos e sentidos.
Tenho acompanhado, com a atenção necessária, diferentes órgãos de comunicação social em Moçambique — públicos e privados, analógicos e digitais, de rádio, televisão, medias sociais, podcasts, entre outros. Na minha análise, a maior parte das ocorrências se encontra nas editorias de Política, Ciência, Desporto e, com mais destaque, na Cultura. Nesses espaços, o termo “representar” surge com frequência em títulos como:
“Assa Matusse representa Moçambique no festival Sauti za Busara em Zanzibar”
“Énia Lipanga representa Moçambique na Conferência Internacional sobre Indústrias Culturais”
“Virgílio Sitole representa Moçambique no debate sobre dança a ter lugar no Brasil”
Esses enquadramentos aparecem nas telas, no áudio, no papel e no digital. Não tenho nada contra a palavra “representar”, mas creio que precisamos repensar seus diversos sentidos. A repetição quase automática da expressão “representa Moçambique” parece inofensiva à primeira vista. Afinal, há um orgulho legítimo em ver nossos talentos cruzarem fronteiras. Mas esse hábito lexical esconde uma questão simbólica profunda: quem pode falar em nome do país? E o que isso significa?
Reflictamos a partir da lente da filósofa pós-colonial indiana Gayatri Chakravorty Spivak, que, em seu célebre ensaio “Pode o subalterno falar?”, alerta para os riscos do verbo “representar”. Spivak destaca que, em alemão, existem dois termos distintos para o que em português chamamos simplesmente de “representar”: (1) Vertretung, que se refere ao acto de assumir o lugar do outro numa acepção política da palavra, ou seja, falar por alguém, a acção de falar ou agir em nome de alguém, com autoridade delegada. Por exemplo, quando um político moçambicano participa numa missão diplomática em serviço do Estado, como uma visita oficial a outro país, está a exercer a Vertretung de Moçambique, pois foi formalmente autorizado a representar os interesses e a voz do Governo moçambicano naquele contexto. Do mesmo modo, um embaixador que actua numa embaixada estrangeira é um representante político legítimo, investido de poderes para defender e promover a posição oficial do seu país.
(2) Darstellung, que corresponde à visão estética que prefigura o acto de performance ou encenação, em outros termos, significa representação simbólica ou figurativa, isto é, reapresentar, descrever ou retratar algo ou alguém. Por exemplo, quando um artista moçambicano participa num festival internacional e apresenta a sua obra ou a sua performance, ele está a fazer uma Darstellung da cultura moçambicana — não está a agir com autoridade oficial do Estado, mas sim a partilhar uma expressão cultural que simboliza ou evoca o país. De igual modo, um académico que apresenta uma comunicação num congresso estrangeiro está a Darstellung o seu trabalho e as suas ideias, contribuindo para a visibilidade simbólica de Moçambique, sem necessariamente falar em nome do país.
No contexto moçambicano, entretanto, esses dois sentidos têm sido confundidos, o que dificulta a compreensão crítica da verdadeira dimensão do que significa “representar”. Quando um académico participa de um evento internacional por mérito próprio, fruto de sua pesquisa e esforço pessoal, é justo dizer que ele está presente, que leva uma experiência moçambicana, que compartilha saberes do seu contexto. Mas dizer que ele “representa Moçambique” é atribuir-lhe um papel institucional que, muitas vezes, ele não recebeu e nem reivindicou.
Essa distorção não é apenas semântica. Ela é ideológica. Atribuir o peso da representação nacional a indivíduos comuns pode parecer elogio, mas, no fundo, é uma forma de apropriação simbólica: o Estado ou a imprensa usam esses sujeitos como vitrinas da nação, mesmo que não os apoiem com passagens, bolsas ou estruturas mínimas. É a pátria na manchete, mas ausente no patrocínio.
E tem mais: esse discurso também é uma forma de silenciamento sútil. Quando se diz que alguém “representa Moçambique”, apaga-se a singularidade da sua voz, da sua história, da sua subjectividade. Ele deixa de falar como um simples Mwenda, Chilengue, Kerene ou Rita — e passa a ser apenas um emblema, uma extensão simbólica da bandeira. Nestes moldes, a Spivak, refere que “falar por outro” pode ser uma maneira de impedir que esse outro fale por si.
Não seria mais honesto dizer:
“Académico moçambicano participa de congresso na África do Sul”?
“Artista leva sua criação a festival internacional”?
“Jovem compartilha saberes do Sul global em diálogo académico”?
Essas formas reconhecem a origem, sem anular a autonomia do sujeito. E isso é essencial num país onde o “representar” virou moeda barata em discursos de ocasião.
No fim das contas, essa crítica não é contra o acto de representar. Mas talvez contra a fetichização do termo, que transforma qualquer presença individual em símbolo nacional, e todo esforço pessoal em performance patriótica.
E talvez a pergunta mais honesta que podemos fazer ao ler esse tipo de manchete seja: Essa pessoa realmente representa Moçambique, ou representa a si mesma, sua trajectória, suas ideias, seu corpo, sua voz? E mais: em nome de quem ela fala, quando fala?
Agora abro espaço ao debate, deixe o teu posicionamento em qualquer espaço digital onde o Redactor se encontra.
KELLY MWENDA *
* Mestrando em Comunicação, na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Brasil
Este artigo foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal REDACTOR, na sua edição de 15 de Agosto de 2025, na rubrica de opinião.
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