O antigamente — CÉSAR NHALIGINGAO
De saco à cintura, capulana a baixo dos joelhos e pé descalço em terra coberta de areia, não importava o tipo, grossa ou fina, mas preferencialmente em campo aberto, fazia-se a dança de zoré, dentre outras para além da marrabenta.
Os batuques eram aquecidos em pleno sol ardente ou lareira feita na base de troncos de diferentes árvores para trazer o som e ritmo de diferentes formas.
Cordas de mitamba enroladas pelos tambores que eram pendurados nos ombros criando estabilidade ao tocador.
Era consumido o tradicional utxema, extraído da palha e canhu, que da frondosa árvore denominada canhoeiro ou marula, nativa das savanas africanas, produz uma bebida tipicamente regional.
Esta planta conservava segredos dos quais eram conhecidos pelos mais velhos e contados aos mais novos para sua melhor integração na sociedade.
A amêndoa da semente, chamada “timongo”, é utilizada como tempero em diversos pratos e iguaria para acompanhar a bebedeira.
Enquanto a casca interna da árvore é usada para tratar diferentes tipos de doenças (malária, tosse, aftas, hemorroidas e picadas de insectos).
A raiz serve como antidiarreico, e as folhas em infusão são usadas para má digestão e dores de ouvido.
Os milaios (conselhos) eram dados pelo regulado ou homem responsável e com conhecimento da tradição a nível da família ou região. Eram feitos uma ou mais vezes mensalmente, dependendo da razão a se convocar para o efeito.
A tradição dita que estas bebidas eram tomadas na base de cafulo de côco ou púcaro o que traduzia uma naturalidade aceitável a todos níveis.
O que sobra hoje são recordações, as devidas marcas do antigamente não são levadas em consideração, sendo pontapeadas pela geração actual que de base para sustentar seus passos e acomodar suas necessidades não são considerados.
A frondosa árvore é considerada sagrada pelo facto de sustentar a vida, simbolizar a fertilidade, a prosperidade e conecta-se com os espíritos ancestrais, actuando como elemento de união social e cultural
Em acto cultural, os dançarinos de zoré colocavam em pulsos e aos pés instrumentos feitos na base de fruta seca de diferentes árvores, com objectivo de criar um ritmo mais convidativo.
Não havia idade para participar daquela tradição, mas tomava-se aconselhamento para melhor estabilidade no seio das diferentes gerações.
Se tem dito que “o consumo de canhu é mais que uma bebida” é, simultaneamente preservar a memória dos antepassados e costumes locais, cultural e espiritual, que envolve partilha, respeito aos antepassados e fortalecimento da identidade comunitária.
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 21 de Agosto de 2025, na rubrica de opinião denominado OPINIÃO
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