A loja amaldiçoada — LEANDRO PAUL
Naquela noite escura e abafada, as ruas do bairro de Malanga estavam desertas. Mas dentro de uma modesta loja de roupa usada, algo estava prestes a acontecer, algo que mudaria para sempre o destino de cinco homens. Eles não eram heróis, nem figuras notórias. Eram simples ladrões, homens que viviam à margem da lei, em busca de uma oportunidade para enriquecer rapidamente, sem pensar nas consequências.
A loja parecia um alvo fácil. Com as luzes apagadas e os portões enferrujados, convidava os oportunistas a entrar nela. Os cinco homens, liderados por Ernesto, o mais experiente do grupo, esperaram até que o silêncio dominasse a madrugada. Os outros seguiam-no cegamente, confiantes de que aquele seria apenas mais um golpe bem-sucedido, como já tinha ocorrido, anteriormente, vezes sem conta.
Com destreza, forçaram a entrada. A porta cedeu com um gemido metálico, e os cinco homens penetraram na loja. Mas, no momento em que cruzaram o limiar, algo invisível começou a acontecer. Um peso estranho apoderou-se do ar, algo denso, opressor. O ambiente mudou, como se as paredes da loja os observassem com olhos invisíveis.
Sem saber, tinham invadido um território proibido. O dono da loja, muito antes daquele assalto, sabia que a sua loja não era protegida apenas por fechaduras. Ele recorrera a algo mais profundo, mais antigo. Um curandeiro local havia lançado um feitiço para manter os ladrões longe. E agora, o feitiço estava a cobrar o seu preço.
Ernesto e os outros começaram a sentir-se estranhos. Os seus corpos pareciam mais pesados, as roupas colavam-se à pele. Um deles, Carlos, tentou alcançar a porta, mas, ao passar pela entrada, algo inexplicável aconteceu. O seu corpo começou a expandir-se, inchando de uma forma estranha, como se estivesse a ser preenchido por ar. Ele recuou, em pânico, tentando escapar, mas já era tarde demais. A sua barriga inchava como um balão, os braços tornavam-se pesados, e o rosto deformava-se em pura agonia.
O pânico alastrou-se entre os outros. “O que é isto?!” gritou Paulo, o mais jovem do grupo, observando horrorizado enquanto Carlos se transformava num monstro deformado. Ernesto tentou puxá-lo de volta, mas sentiu a mesma força estranha puxando-o para baixo, como se o chão o estivesse a engolir. O peso no seu corpo aumentava a cada segundo, e quando olhou para as suas próprias mãos, viu que elas também estavam a inchar, como se tivessem sido inflamadas por dentro.
A porta, que antes parecia um caminho fácil para a fuga, logo a seguir ao assalto, agora parecia uma passagem estreita, impossível de atravessar. Os homens, antes ágeis e rápidos, estavam agora presos em corpos pesados, condenados a sufocar dentro das suas próprias peles.
“É feitiço!”, gritou Ernesto, com os olhos arregalados de terror. “Feitiço!”, repetiam os outros, numa espécie de preces de desespero.
Do lado de fora, as primeiras luzes da manhã começaram a surgir, e o rumor de que algo sobrenatural estava a acontecer espalhou-se como um incêndio sobre o capim. De esquina em esquina, de rua em rua, as pessoas corriam para ver o espectáculo bizarro. No início, eram apenas alguns curiosos, mas logo centenas de pessoas amontoaram-se em frente à loja, empurrando-se para ver os ladrões que haviam engordado de maneira desumana.
A multidão sussurrava, cheia de medo e fascínio. “Dizem que estão lá dentro, presos pelo feitiço”, comentou um homem idoso, com a voz rouca. “Este feitiço enche os corpos dos ladrões, como se fossem câmaras de ar. O curandeiro usa câmaras de ar de carros. À medida que o feitiço faz efeito, o ar vai enchendo os ladrões, e o corpo deles vai crescendo, inchando, inchando… se o corpo não aguentar, a câmara rebenta, e o ladrão morre! ”, explicou, deixando a multidão ainda mais inquieta.
A Polícia chegou, mas manteve-se à distância. Estavam à espera do dono da loja, o único que, segundo diziam, poderia quebrar o feitiço. Enquanto isso, os homens dentro da loja estavam a definhar, presos nos seus corpos inchados, incapazes de se mover ou de gritar. Os seus rostos estavam distorcidos pelo terror, os olhos cheios de desespero. O ar parecia desaparecer lentamente, como se a própria loja os estivesse a sufocar.
Quando o dono da loja finalmente chegou, a multidão ficou em silêncio. Ele não veio sozinho. Ao seu lado, estava o curandeiro, um homem velho de olhar penetrante, vestido com trajes tradicionais. Sem dizer uma palavra, o curandeiro entrou na loja. O silêncio que se seguiu foi quase insuportável. Todos prenderam a respiração, esperando pelo que viria a seguir.
Dentro da loja, o curandeiro aproximou-se dos ladrões, que agora estavam irreconhecíveis, monstruosos nas suas formas descomunais. Com movimentos lentos e precisos, ele começou a entoar cânticos antigos, palavras que pareciam vir de outro tempo. A magia no ar começou a dissipar-se lentamente. Os corpos inchados dos ladrões começaram a desinchar, mas o horror nos seus olhos permaneceu.
Quando finalmente puderam sair, não eram mais homens. Eram sombras do que já tinham sido, desfigurados pela experiência que jamais poderiam esquecer.
A multidão afastou-se, em silêncio, observando os ladrões a arrastarem-se para longe, sem olhar para trás.
Não houve justiça ou punição legal. Os polícias limitaram-se a se afastar. O feitiço tinha feito o seu trabalho, e aquele ladrões da noite pagaram um preço que ninguém ousava questionar.
A loja, agora vazia, parecia estar de volta ao seu estado normal, mas o seu segredo continuava lá, intacto. As pessoas ainda sussurravam sobre o que aconteceu naquela noite, mas ninguém, absolutamente ninguém, ousaria tentar ali entrar novamente sem permissão.
Este artigo intitulado foi publicado em primeira-mão na versão PDF do jornal Redactor, na sua edição de 25 de Agosto de 2025, na rubrica de opinião denominado FIM-DE-SEMANA: A caminho dos 30.
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